Kirchner será sucedido por sua mulher, a “fashion” Cristina Fernández, e, a julgar por seu comportamento e sua imagem, muito mais confortável com rituais protocolares da atividade presidencial que seu marido.
O 25 de maio de 2003, quando assumiu o poder, ficou registrado como o dia em que Kirchner rompeu todos os estereótipos do protocolo presidencial sob o olhar atônito dos especialistas em cerimonial.
Usando um paletó aberto e mocassins, o dirigente peronista teve dificuldades para colocar a faixa presidencial quando a recebeu das mãos de seu antecessor, Eduardo Duhalde.
Minutos depois brincou com o bastão de comando, situação que rendeu a Cristina Fernández um sorriso nervoso, e que mais tarde, diante das primeiras críticas, atribuiu a uma suposta tradição indígena. Nem tudo terminou ali.
Na caminhada que o levou do edifício do parlamento até a sede do governo, Kirchner atravessou a cerca que o separava da multidão e bateu com a testa na câmera de um fotógrafo, o que lhe rendeu um corte de dois centímetros que o levou direto para a enfermaria, a primeira dependência da Casa Rosada visitada por Kirchner.
Em seguida, um assessor presidencial aproximou-se de Kirchner e sugeriu a ele que não voltasse a se misturar ao povo em sua nova caminhada rumo à Catedral Metropolitana, onde se realizaria o tradicional Tedéum.
“Não se preocupe, o povo não vai me fazer nada de mau”, disse o governante, antes de voltar a se referir ao tema em uma entrevista enquanto se dirigia a pé para a catedral. “Por que atravessei as cercas? Porque há 30 anos eu estava ali, junto ao povo. Por que não o faria hoje se eu sou um deles?”, disse.
Em seus quatro anos e meio de gestão, Néstor Kirchner também foi criticado por sua falta de pontualidade ao liderar atos oficiais, por sua pouca predisposição a assistir às cúpulas e por sua irregular postura em relação a presidentes, reis e demais dignatários.
Alguns exemplos são sua ausência em um jantar de honra que ele mesmo tinha organizado no final de 2004 para o então presidente do Vietnã, Tran Duc Luong, ou a interminável espera à qual submeteu o rei espanhol Juan Carlos durante o Congresso da Língua realizado no mesmo ano.
No mesmo nível fica o cancelamento de uma reunião que manteria com o presidente russo, Vladimir Putin, no aeroporto de Moscou, o mesmo que suas faltas ao funeral do Papa João Paulo II, em 2005, e à cerimônia de honra que a rainha Beatrix da Holanda lhe ofereceu em Buenos Aires, em 2006.
“Durante muitos anos este país viveu da formalidade, da superficialidade, muito preocupado com os protocolos e com os níveis de determinada educação”, afirmou Kirchner recentemente.
“Cheguei à Casa Rosada no meio do povo e vou sair caminhando da mesma maneira, com minhas convicções, com este paletó pelo qual tanto me criticam e com estes mocassins de que não gostam, porque se há uma disciplina que jamais aprendi é a do protocolo”, afirmou.
Fazendo piada, um dia depois das eleições de 28 de outubro, Kirchner disse a um jornalista que seria o novo chefe de protocolo da Presidência quando sua mulher assumisse o governo. “Pode desmentir isso. Nunca será diretor de protocolo. Este homem é incorrigível”, disse Cristina imediatamente.