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Mubarak se declara inocente na abertura de julgamento histórico

Arquivo Geral

03/08/2011 20h25

Deitado em uma maca, mas ativo e inquieto, o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak negou nesta quarta-feira (3) todas as acusações feitas contra ele na Justiça local, no primeiro dia de um julgamento sem precedentes no mundo árabe e permeado pelo caos do lado de fora da sede da audiência.


Até que o helicóptero que o transportou do hospital de Sharm el-Sheikh onde estava internado aterrissasse, predominava o sentimento de incerteza sobre a possibilidade de ver Mubarak no banco dos réus.

Por fim, não foi no banco, mas em uma maca que compareceu o presidente do Egito durante 30 anos e agora acusado judicialmente de ter ordenado a morte de seus próprios compatriotas, aos quais chamava seus “filhos”, para sufocar a revolta que acabou com sua Presidência em 11 de fevereiro passado.

“Nego todas essas acusações”, disse Mubarak, com voz nítida e microfone na mão, em resposta à pergunta formulada pelo presidente do tribunal, o juiz Ahmed Refaat.

 

O tribunal decidiu fixar a próxima sessão do processo para o dia 15 de agosto, depois de mais de quatro horas de leitura de acusações e, sobretudo, de escutar a toda uma passarela de letrados, cada um com seus pedidos.

“Por enquanto, é um julgamento justo. Está muito bem que os juízes tenham ouvido todo mundo”, assinalou o diretor da Rede Árabe para a Informação sobre os Direitos Humanos, Gamal Eid, em entrevista à Agência Efe – um dos dez meios de comunicação internacionais credenciados pelo Governo egípcio para acompanhar o julgamento.

Um dos advogados da acusação, Mahmoud Kadry, expressou sua confiança de que Mubarak possa ser considerado culpado e condenado à morte, uma pena que depois poderia ser comutada pelas autoridades do país.

“Mubarak também passou ordens aos militares para disparar, mas estes se opuseram. Também é algo que buscaremos provar”, explicou Kadry, que contestou o tribunal por ouvir primeiro o depoimento dos advogados de defesa, “contra a legislação egípcia”.

Junto ao ex-presidente, estão sendo processados pela morte de manifestantes o ex-ministro do Interior egípcio Habib el Adly e seis de seus assessores.

Todos eles poderiam se enfrentar a pena de morte caso sejam considerados culpados de planejar o ataque contra os participantes das revoltas populares, que deixaram mais de 850 mortos.

No local com grades reservado aos réus, Mubarak estava acompanhado de seus dois filhos, Alaa e Gamal, com quem conversava constantemente. Eles também estão sendo processados, assim como o empresário Hussein Salem por crimes de corrupção.

No entanto, mais do que o conteúdo da audiência, o interesse nesta quarta-feira se concentrava na imagem do próprio Mubarak, um fato simbólico, considerado pelos promotores da Revolução do 25 de Janeiro como um passo decisivo na transição para a democracia.


A Irmandade Muçulmana – principal força de oposição sob Mubarak, mas que não teve um papel preeminente na revolução – destacou o simbolismo do início do processo e o qualificou como um “fato único” na história egípcia, que tranquiliza o povo.

Apesar dessa alegria, dezenas de manifestantes favoráveis e contrários ao ex-líder transformaram a esplanada junto à Academia de Polícia, sede do julgamento, em um campo de batalha quando se enfrentaram a pedradas pouco antes do início da audiência.

Diante da passividade de centenas de policiais mobilizados na entrada do prédio, os dois grupos começaram a lançar pedras uns contra os outros e brigar corporalmente com socos e empurrões, incidente que deixou pelo menos 61 feridos.

O caos tomou conta dos arredores da Academia de Polícia, enquanto, dentro do recinto, prevalecia a calma, onde foram aplicadas severas medidas de segurança.

Após a audiência, Mubarak foi levado a um hospital internacional próximo, localizado na estrada que liga o Cairo à cidade de Ismailia, em vez de retornar ao hospital de Sharm el-Sheikh, onde foi internado em 12 de abril.

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