As autoridades continuam fornecendo água e alimentos aos 33 operários que, desde o dia 5 de agosto, estão soterrados em uma mina do norte do Chile, enquanto finalizam os preparativos para iniciar a perfuração que permitirá o resgate.
As equipes de resgate transferiram, nesta sexta-feira, a base da Raise Borer Strata 950, uma máquina perfuradora de 30 toneladas cedida pela estatal Corporação do Cobre (Codelco), ao ponto onde será realizada a escavação.
O esperado é que, neste sábado, a máquina comece a perfurar um túnel de 38 centímetros de diâmetro, que posteriormente será ampliado para, aproximadamente, 66 centímetros, por onde as vítimas serão resgatadas. O trabalho pode demorar cerca de três meses.
O movimento de máquinas levantou aplausos entre os parentes dos mineradores que permanecem no Acampamento Esperanza, ao lado da mina San José, situada na região de Atacama, a cerca de 830 quilômetros de Santiago.
As famílias dos operários estavam com o ânimo renovado, após ver seus entes queridos em um vídeo divulgado na noite de quinta-feira.
Os próprios mineradores gravaram o vídeo, no qual aparecem alguns deles, visivelmente magros, barbudos e sujos, mas de muito bom humor, mostrando as instalações que eles mesmos montaram.
“Nestes momentos vemos as coisas boas que existem no Chile”, disse emocionado Luis Urzúa, chefe de turno e um dos líderes do grupo.
“Estamos todos ansiosos para poder sair e cumprimentar nossas famílias, nossos companheiros, os que trabalharam dia e noite e 17 milhões de chilenos”, acrescentou Urzúa.
Mario Sepúlveda, outro soterrado, improvisou a apresentação do vídeo e mostrou as dependências onde convivem há vinte e dois dias, que inclui o que eles chamam de “cassino”.
“Este é o lugar onde nos divertimos, jogamos cartas, inventamos um dominó e nos entretemos”, conta Sepúlveda.
As imagens também mostraram o boliviano Carlos Mamani, que enviou um recado para sua família. “Saudação para minha esposa, para meus sogros que estão lá e para a Bolívia que está me vendo”.
No final, os 33 operários cantaram com entusiasmo o hino nacional e gritaram: “Viva o Chile, vivam os mineradores”.
Apesar da boa impressão que as imagens deixaram, o vídeo também revelou certa angústia que, segundo especialistas, pode piorar com o tempo.
“Angélica: preciso que me responda a todas estas perguntas, por favor: “O que disseram sobre nós? Existe alguma máquina sendo instalada para nos resgatar? Qual é o prazo que deram para a nossa possível saída? Serão dois meses aqui dentro ou não? Verifique, por favor”, escreveu Edison Peña, um dos soterrados, a sua esposa.
Peña, de 34 anos, chegou à mina San José há seis meses com o objetivo de se aperfeiçoar e trabalhar em uma mina maior. O trabalhador pede que sua esposa o espere como se estivesse viajando. Para evitar que a angústia e a ansiedade aumente, as autoridades começaram a pensar em várias formas de mantê-los entretidos durante o tempo que o resgate durar.
O ministro da Saúde do Chile, Jaime Mañalich, disse que depois de atribuir aos mineradores tarefas relacionadas à sobrevivência e organização, e de identificar os líderes do grupo (Luis Urzúa, Johnny Barrios e Mario Gómez), foi enviado um pequeno projetor para que criem sua própria sala de cinema.
“Os filmes vão estar lá embaixo quando tivermos a segurança de que terão um bom uso”, disse Mañalich, ao advertir que alguns filmes poderiam afetá-los emocionalmente.
Enquanto isso, ficou decidido gravar mensagens de parentes e enviar o equipamento com o qual eles fizeram o vídeo divulgado na noite de quinta-feira.
O empresário Marcelo Kemeny, um dos donos da mineradora San Esteban, proprietária da jazida San José, deve prestar depoimento nesta sexta-feira perante a promotoria regional de Copiapó que investiga um acidente ocorrido no dia 3 de julho no qual o trabalhador Gino Cortés sofreu a amputação de uma perna após um desprendimento de rocha.
Alejandro Bohn, outro dono da mineradora, deu esclarecimentos nesta quinta-feira na causa em que os dois empresários são interrogados na qualidade de acusados, e correm o risco de serem processados por lesões graves.