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Mundo

Medo de Putin faz França criar novo serviço militar

Com tensão crescente com a Rússia, Macron anuncia novo programa de defesa para jovens e tenta conter debate sobre eventual envio à Ucrânia

Redação Jornal de Brasília

27/11/2025 14h02

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Foto: Reprodução

IGOR GIELOW
FOLHAPRESS

Em mais um passo da crescente militarização da Europa devido ao risco percebido de um conflito com a Rússia na esteira da Guerra da Ucrânia, a França anunciou nesta quinta-feira (27) a criação de uma nova modalidade de serviço militar.

“A França não pode ficar parada”, disse o presidente Emmanuel Macron ao revelar os detalhes do novo programa, em uma base militar em Varces, nos Alpes. O plano “foi inspirado por práticas de nossos aliados europeus, num momento em que todos avançam em resposta a uma ameaça que pesa sobre todos nós”, afirmou.

A ameaça, claro, é aquela que a Europa percebe no presidente Vladimir Putin, que invadiu a Ucrânia em 2022 e agora lida com mais uma difícil tentativa de acordo de paz mediado por Donald Trump.

O russo disse recentemente que líderes europeus vivem uma “histeria militar”, mas que isso pode levar à guerra. Nesta quinta, em reunião com aliados no Quirguistão, afirmou que a ideia de que vá atacar a Otan é ridícula.

Macron, contudo, não mencionou o nome da Rússia, visando baixar a temperatura alta devido a comentários do chefe das suas Forças Armadas, o general Fabien Mandon. Ele disse que a França precisava se fortalecer e “aceitar perder suas crianças” em sua defesa. Políticos de todas as colorações criticaram o tom, e o próprio presidente foi a público dizer que não pretendia enviar jovens para lutar na Ucrânia.

Seja como for, o novo plano militar é destinado a jovens, embora Macron tenha descartado a volta do alistamento obrigatório, extinto em um processo gradual de 1997 a 2001.

Pelo esquema, jovens de 18 e 19 anos que toparem ser voluntários receberão salários por dez meses, num custo inicial equivalente a R$ 12,4 bilhões anuais. Macron quer atrair 3.000 pessoas em 2026, chegando a 10 mil em 2030 e, “dependendo da evolução das ameaças”, a 50 mil em 2036.

Hoje, a França tem um efetivo de 202 mil militares, além de 38,5 mil reservistas. Os jovens que aderirem ao programa só servirão em solo francês, uma forma de evitar o fantasma de uma eventual ação na Ucrânia ou outro ponto.

A questão é sensível nas discussões sobre a paz. O plano inicial de Trump, pró-Rússia, previa a proibição da adesão de Kiev à Otan e a presença de forças ocidentais em solo ucraniano. Na versão revisada após pressão europeia, isso não está claro.


No ano passado, quando ventilou a hipótese de uma força de paz, Macron ouviu de Putin a ameaça de uma guerra nuclear, já que estariam em campo a Rússia e um país da Otan, dragando toda a aliança para o combate por vinculação de tratado.

Na terça (25), o francês voltou a falar numa força multinacional com britânicos e turcos, mas nesta quinta a chancelaria em Ancara disse que só é possível discutir isso se houver um cessar-fogo. Em Moscou, a porta-voz diplomática Maria Zakharova respondeu, dizendo que tal ideia é inaceitável.

Já Putin voltou a dizer que o plano na mesa é “uma base” para discussão e que receberá o enviado americano Steve Witkoff na semana que vem, rebatendo a acusação de que ele é pró-Moscou como “bobagem”. Disse que foi surpreendido pelas sanções americanas a petroleiras russas, e que isso “está destruindo a relação” com os EUA.

Afirmou que se a Ucrânia não deixar as áreas que ele anexou ilegalmente em 2022, elas serão tomadas à força —uma referência aos avanços russos em Donetsk (leste), que ainda tem 15% sob controle de Kiev.

TRUMP ESTIMULOU REMILITARIZARIZAÇÃO


A remilitarização europeia é uma decorrência também do desengajamento proposto por Trump, que denunciou as décadas de dependência da defesa do continente em relação a Washington. A Otan concordou em aumentar a sua meta de despesa a 5% do Produto Interno Bruto de cada um dos 32 membros —30 europeus, EUA e Canadá.


No campo dos efetivos, a Alemanha aprovou um plano que imita o modelo sueco de alistamento voluntário, com registro nacional de potenciais soldados. Só que a ideia prevê a volta da conscrição obrigatória em 2027 se os números desejados não forem alcançados.

Outros países, como a Dinamarca, também introduziram modelos semelhantes. O alistamento obrigatório, curiosamente, é uma invenção francesa, que remonta à época da revolução que derrubou a monarquia em 1789. Os republicanos introduziram a medida devido à falta de forças para combater os rivais, e ela durou até 2001.

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