O ministro da Fazenda, Guido Mantega, assinalou nesta sexta-feira no encerramento da cúpula do Grupo dos Vinte (G20, que reúne os países ricos e os principais emergentes) em Seul que o documento final facilitará ferramentas para enfrentar o que ele mesmo batizou como uma “guerra de divisas”, protagonizada por Estados Unidos e China, e cuja existência põem em dúvida economistas.
“Não acho que (a guerra de divisas) tenha acabado. Ela se tornou mais explícita e começamos a falar dela. Por isso que agora vamos ser capazes de usar ferramentas para enfrentar a guerra de divisas ou pelo menos reduzir sua intensidade”, assegurou Mantega à imprensa na capital sul-coreana, após aplaudir o sucesso da cúpula.
O ministro assinalou que, inclusive os países mais reticentes, concretamente China e EUA, reconheceram que o problema está sobre a mesa e que é preciso tomar medidas para reduzir os desequilíbrios comerciais, de pagamentos e de divisas que existem entre os países.
Mantega informou que foi O Brasil quem insistiu em incluir o parágrafo número 6 do chamado “Plano de ação de Seul” no qual se recomenda políticas macroeconômicas, incluindo a consolidação fiscal, para assegurar um crescimento sustentável e expandir a estabilidade dos mercados financeiros.
“E em particular, avançar rumo a tipos cambiais mais determinados pelo mercado”, disse, e não pela vontade dos Governos para promover suas exportações como receita rápida contra a crise.
Com relação à minuta da reunião de ministros do G20 realizada em Gyeongju em outubro, este parágrafo reafirma a importância dos bancos centrais para manter a estabilidade de preços e a necessidade de combater a excessiva volatilidade de influxos de capital que economias emergentes como o Brasil enfrentam.
“Isto significa um sistema cambial flutuante determinado pelo mercado, fomos capazes de colocá-lo no documento. E isto foi assinado pelos 20 países, incluindo China e EUA”, acrescentou o ministro.
“As diferenças entre China e EUA foram muito óbvias e eles decidiram que tentar resolvê-las aqui não era possível. Mas acho que houve um claro entendimento que há uma data para fazê-lo, algo que não existia antes. E no primeiro trimestre de 2011 haverá uma avaliação dos desequilíbrios econômicos”.
Mantega foi justamente quem cunhou o termo “guerra de divisas” perante a recusa de Pequim de desvalorizar sua moeda, o iuane, e pouco antes da injeção de US$ 600 bilhões anunciada na semana passada pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), que segundo suas análise levaria a uma desvalorização do iuane.
No entanto, economistas como John Kirton, diretor do Grupo de Pesquisa do G20 da Universidade de Toronto, assinalou à Agência Efe que tal guerra nunca chegou a ser travada, mas que existia um risco do que preferia chamar “desvalorização competitiva”.
Em virtude do documento assinado nesta sexta-feira, os países signatários se comprometeram a criar diretrizes para medir e detectar desequilíbrios em conta corrente e irregularidades no mecanismo cambial de sua moeda, entre outros pontos, que apresentarão no começo de 2011.
Segundo Mantega, o próprio secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, assegurou durante a reunião sul-coreana que a injeção de liquidez do Fed não tinha por objetivo desvalorizar o dólar, mas promover a recuperação econômica de seu país.
O ministro da Fazenda comemorou também a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) que permitirá uma maior representatividade dos países emergentes e a capacidade do G20 para cooperar com o objetivo de conseguir soluções que funcionam, como já fizeram em 2008, ao explodir a crise financeira.
“Foi uma reunião de muito sucesso. Acreditamos que todo mundo vai para casa feliz”, concluiu Mantega.