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Manobras chinesas ao redor de Taiwan ameaçam cadeias de abastecimento globais

Nos últimos dois dias, mais de 400 voos foram cancelados nos principais aeroportos de Fujian, a província chinesa mais próxima a Taiwan

Foto: AFP

As manobras militares da China nesta quinta-feira (4) em torno das movimentadas rotas comerciais ao redor de Taiwan ameaçam interromper as cadeias de abastecimento mundiais, já comprometidas pela pandemia de covid-19 e pela guerra na Ucrânia.

Os exercícios ao redor da ilha – os maiores da história da China – são uma resposta à visita da presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, a Taiwan na terça-feira e quarta-feira.

As manobras tocam em pontos das rotas comerciais mais movimentadas do planeta e de uma importância crucial, já que conectam o mundo com as fábricas de semicondutores e equipamentos eletrônicos do leste da Ásia e também são usadas para o transporte de gás natural.

Destinados a simular um “bloqueio” a Taiwan, incluem “munição real e fogo de artilharia de longo alcance”, mísseis que devem sobrevoar a ilha pela primeira vez, segundo a imprensa estatal.

Como medida de segurança, a Administração de Segurança Marítima chinesa “proibiu” que os navios entrem em áreas afetadas.

Nos primeiros sete meses do ano, quase metade dos navios porta-contêineres do mundo passou pelo Estreito de Taiwan, segundo dados compilados pela Bloomberg.

“Como grande parte da frota mundial de contêineres passa por essa via fluvial, o desvio (causado por manobras) inevitavelmente levará a interrupções nas cadeias de suprimentos globais”, disse James Char, pesquisador associado da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam de Singapura.

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Voos cancelados

As cadeias de abastecimento já foram gravemente afetadas pela pandemia e pela guerra na Ucrânia.

“O fechamento dessas rotas de transporte – mesmo que temporariamente – tem consequências não só para Taiwan, mas também para os fluxos comerciais vinculados ao Japão e à Coreia do Sul”, destaca em nota Nick Marro, analista do Economist Intelligence Unit.

O mesmo ocorre com as rotas aéreas: nos últimos dois dias, mais de 400 voos foram cancelados nos principais aeroportos de Fujian, a província chinesa mais próxima a Taiwan. As autoridades taiwanesas alertaram que os simulações interromperão 18 rotas aéreas internacionais que passam pela área.

Na Bolsa de Taiwan, o índice Taiex dedicado às empresas de transporte aéreo e marítimo caiu 1,05% na quarta-feira, depois de retroceder 4,6% desde o início da semana.

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Várias empresas de navegação procuradas pela AFP disseram estar à espera de ver o impacto dos exercícios antes de alterarem as suas rotas, enquanto outras não preveem alterações.

“Não esperamos nenhum impacto durante (este) período e não temos planos de desviar nossos navios”, disse Bonnie Huang, porta-voz na China da Maersk, uma das maiores companhias de navegação do mundo.

Bloquear a ilha

Durante a última crise no Estreito de Taiwan na década de 1990, os exercícios militares chineses, incluindo o lançamento de mísseis nas águas da ilha, duraram meses.

Desta vez, os chineses querem “provar sua determinação de uma maneira que vai muito além do que fizeram em 1996”, considera Bonnie Glasser, diretora do programa da Ásia no American German Marshall Fund.

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À sua demonstração de força militar, a China poderia somar ataques cibernéticos e já começou a aplicar sanções comerciais.

Mas como a economia da potência asiática já sofre as restrições sanitárias aplicadas desde 2020, é pouco provável que Pequim aposte em um grande bloqueio comercial, segundo os analistas.

“Fechar todo o tráfego dentro do Estreito por um longo período de tempo prejudicaria a economia chinesa”, observa James Char.

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“Devido à expansão espetacular de suas capacidades aéreas e marítimas nos últimos anos, o mais provável é que a China tenha a capacidade de impor um bloqueio aéreo e marítimo a Taiwan”, estima Thomas Shugart, especialista em inovação militar do Centro para a Nova Segurança dos Estados Unidos, em Washington.

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Para Shugart, a decisão final de Pequim depende dos riscos políticos e econômicos que o governo estiver disposto a assumir.

© Agence France-Presse








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