As forças de segurança do Sudão mataram um manifestante neste sábado (13) durante os protestos contra o golpe de Estado no país, em uma jornada de teste tanto para os opositores como para os generais no poder.
“Um manifestante morreu em Omdurman ao ser atingido por tiros do conselho militar golpista”, afirmou o Comitê Central de Médicos sudaneses. O comunicado também cita pessoas feridas a tiros durante a repressão das forças de segurança.
Os ativistas pró-democracia convocaram, por mensagens de texto, os sudaneses a protestar para exigir o retorno do governo civil e evitar uma nova “ditadura militar” no país depois do golpe de 25 de outubro, condenado pela comunidade internacional.
Como em cada dia de manifestações, as forças de segurança usaram gás lacrimogêneo contra passeatas na zona leste de Cartum e em Omdurman, subúrbio noroeste separado da capital sudanesa por uma ponte sobre o rio Nilo Branco.
Desde as primeiras horas da manhã, soldados e paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF) estavam mobilizados nas ruas de Cartum para bloquear as pontes que ligam a capital ao subúrbios e para controlar as principais avenidas.
Apesar dos obstáculos, vários grupos iniciaram as passeatas a partir de diversos bairros com gritos de “Não ao poder militar” e “Abaixo o Conselho Soberano”, liderado pelo general Abdel Fattah al Burhan, autor do golpe de Estado.
Manifestações também foram organizadas no leste do país.
Desde o golpe de Estado, os protestos deixaram 15 mortos e mais de 300 feridos, de acordo com fontes médicas.
O general Burhan nomeou na quinta-feira um novo Conselho Soberano, do qual foram excluídos os representantes do bloco que pede a transferência de poder aos civis.
Este conselho foi criado após a queda em 2019 do ditador Omar Al Bashir para supervisionar a transição à democracia, justamente sob a presidência de Burhan.
Mas em 25 de outubro, o general dissolveu todas as instituições, declarou estado de emergência e vários líderes civis do país foram detidos.
Com seu número dois, o general Mohamed Hamdan Daglo, comandante das influentes RSF, paramilitares acusados de vários abusos, Burhan prometeu organizar “eleições livres e transparentes” no verão de 2023.
As promessas não apaziguaram a oposição, afetada por centenas de detenções, que continuaram neste sábado, de acordo com sindicados e associações pró-democracia.
“Moderação”
Para Volker Perthes, emissário da ONU para o Sudão, a prioridade neste sábado era que “as forças de segurança atuassem com máxima moderação e respeitassem a liberdade de reunião e de expressão”.
O especialista considera, no entanto, que a “nomeação unilateral do Conselho Soberano por parte do general Burhan torna muito mais difícil retornar aos compromissos constitucionais” de 2019.
Desde o golpe de Estado condenado pela comunidade internacional, Burhan suspendeu vários artigos da declaração constitucional que deveria guiar a transição para eleições livres.
Ele retomou os artigos na quinta-feira, mas depois de eliminar qualquer referência às Forças da Liberdade e Mudança (FFC, na sigla em inglês), o bloco civil surgido da revolta que derrubou Bashir em abril de 2019.
“Agora que aconteceu o golpe, os militares querem consolidar seu controle do poder”, afirma Jonas Horner, pesquisador do International Crisis Group, enquanto a imprensa estatal anuncia a cada dia novos expurgos.