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Lula usa palco do G7 para criticar retração da solidariedade internacional e protecionismo

Presidente brasileiro defende maior apoio ao desenvolvimento, critica o enfraquecimento da cooperação internacional e pede avanços no financiamento climático durante cúpula na França

Redação Jornal de Brasília

16/06/2026 13h11

Foto: LUDOVIC MARIN / POOL/AFP

Foto: LUDOVIC MARIN / POOL/AFP

JOÃO CAMINOTO
FOLHAPRESS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou nesta terça-feira (16) a sessão ampliada da cúpula do G7 para cobrar dos países ricos o que chamou de omissão diante da crise global de desenvolvimento -e para criticar, sem citar nomes, tanto o neoliberalismo quanto o protecionismo que marca a política comercial do governo de Donald Trump, um dos participantes do evento.

“Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe”, afirmou Lula no discurso proferido na sessão dedicada ao tema “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional”, em Évian.

Foi a décima participação do presidente brasileiro em cúpulas do G7 ou G8 -a primeira também nesta cidade francesa, em 2003. “Desde aquele ano estive em outras nove cúpulas do G8 ou G7. Em todas elas nos defrontamos com crises e desafios que afetam milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas em nenhuma conseguimos construir respostas coletivas e duradouras”, disse.

Em seu discurso, Lula fez uma avaliação crítica das últimas décadas de política econômica global. Ele afirmou que os países “ficaram aprisionados em dogmas que defendem a desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos” e que “o neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias”.

Voltando-se para o cenário atual, disse que “o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas.”

Lula citou uma série de dados para ilustrar o que chamou de retrocesso na cooperação internacional. Segundo ele, a ajuda oficial ao desenvolvimento registrou queda histórica de 23% no ano passado; o Programa Mundial de Alimentos perdeu cerca de 40% de seu financiamento; e a Organização Mundial da Saúde e o Unicef reduziram os orçamentos em mais de 20%.

“Não são cifras abstratas. Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento”, disse. Os dados não foram verificados de forma independente pela Folha de S.Paulo.

A retórica mirava, sem nomear, os cortes promovidos pelo governo Trump na ajuda externa americana desde o início de seu segundo mandato -uma das mudanças mais abruptas na política externa dos Estados Unidos em décadas.

Lula também defendeu uma redistribuição mais ampla de recursos. “O mundo em desenvolvimento transfere US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida, valor sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos”, afirmou. E cobrou um sistema financeiro diferente: “Precisamos de um sistema no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças.”

Na área climática, defendeu que o financiamento global seja ampliado para ao menos US$ 1,3 trilhão ao ano, e criticou o ritmo de implementação do Acordo de Paris. “A COP30 voltou a evidenciar a distância entre os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos efetivamente mobilizados para cumpri-los”, disse.

O presidente citou iniciativas brasileiras como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a Aliança Global contra a Fome, e defendeu que países detentores de minerais críticos participem das etapas de maior valor agregado das cadeias produtivas ligadas à inteligência artificial e à transição energética.

Ainda nesta terça, Lula tem prevista para as 17h20 uma reunião com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa -o encontro mais aguardado pelo lado brasileiro em Évian.

A reunião ocorrerá em meio à tensão com Bruxelas pela suspensão das importações de carne brasileira pela União Europeia. Na véspera, Costa disse que o bloco mantém um “diálogo construtivo” com o Brasil sobre o tema, mas ressaltou que “as normas sanitárias têm de ser cumpridas” -deixando para Von der Leyen qualquer posição mais concreta após o encontro.

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