O presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve hoje o apoio incondicional do Kremlin em sua mediação na crise nuclear do Irã, considerada por Moscou a última tentativa de evitar a imposição de sanções internacionais.
“Espero que a missão do presidente do Brasil seja coroada com o sucesso. É talvez a última oportunidade antes da adoção das medidas que todos conhecemos no marco do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, disse o líder russo, Dmitri Medvedev, durante uma entrevista coletiva com Lula no Kremlin.
Lula disse estar “otimista” com sua viagem a Teerã no próximo domingo, e afirmou que irá procurar convencer seu “amigo”, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que “é melhor o acordo que a divergência”.
“Viajo (a Teerã) sabendo que o diálogo que acontecerá é muito importante e tentarei utilizar todo meu poder de persuasão”, disse o presidente. O Irã é acusado pelo Ocidente de ocultar sob seu programa nuclear civil outro secreto para criar um arsenal atômico.
Acrescentou que está “otimista”, assegurou que fará tudo a seu alcance “para conseguir algum acordo” e se mostrou “convencido que conseguirá”.
“Sempre defendi que dizer que as sanções facilitarão o acordo é um erro (…) Devemos evitar que o Irã passe pelo mesmo que o Iraque”, afirmou Lula.
O Brasil apresentou uma proposta de regra da crise segundo a qual o Irã entregaria urânio levemente enriquecido à Turquia em troca de material nuclear de maior pureza destinado a fins exclusivamente civis.
Além disso, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, viajará domingo a Teerã para tratar com Lula e Ahmadinejad desta iniciativa, que permitiria ao Irã evitar novas sanções internacionais impulsionadas pelos Estados Unidos e Israel.
Medvedev disse que conversou por telefone com o presidente americano, Barack Obama, cuja Administração suspeita que Ahmadinejad só apóia a mediação de Lula para ganhar tempo e não pensa em renunciar ao enriquecimento do urânio no Irã.
“Disse (a Obama) que é preciso dar a oportunidade ao presidente do Brasil para que utilize todos os argumentos da comunidade mundial a fim de que o Irã coopere”, ressaltou Medvedev, que estimou em “30%” as probabilidades de sucesso da missão de Lula.
O chefe do Kremlin disse que, caso a iniciativa do Brasil fracasse, a imposição de sanções se transformará em uma ameaça real, pois os seis países mediadores no conflito com o Irã (os cinco membros permanentes do Conselho da ONU e Alemanha) mantêm ao respeito “posturas suficientemente consolidadas”.
“Por isso, desejo sinceramente ao meu colega e amigo, o presidente do Brasil, sucesso em suas negociações em Teerã e peço ao presidente iraniano que escute os argumentos expostos por Lula da Silva”, manifestou.
Por outro lado, Lula e Medvedev reivindicaram um papel internacional maior para o G20 e decidiram criar uma equipe de trabalho conjunta para impulsionar o emprego das divisas nacionais no comércio bilateral.
Medvedev disse que “é preciso buscar que o G20 se transforme em um instrumento permanente, se institucionalize, e em seu seio apareçam estruturas distintas que lhe permitam influir realmente nas relações econômicas internacionais”.
Acrescentou que o uso das moedas nacionais no comércio é “muito importante para o desenvolvimento econômico da Rússia e do Brasil e, em geral, para o caráter equilibrado do sistema financeiro internacional”.
“Como o demonstra a experiência, nem o dólar, nem o euro, nem nenhuma outra moeda pode reivindicar o status de uma divisa mundial que proteja a todos os Estados”, disse o líder russo.
Em matéria bilateral, Medvedev qualificou de “estratégicas” as relações com o Brasil, enquanto Lula assinalou que a cooperação nos campos da energia, inclusive nuclear, as altas tecnologias, o espaço, a defesa e a agricultura é prioritária.
“Estou em Moscou para celebrar uma nova aliança entre os dois países”, destacou Lula, que participou de manhã de um fórum de empresários russo-brasileiros.
Ele precisou que deseja cooperar com a Rússia na exploração de novas jazidas de petróleo descobertos no Brasil, o desenvolvimento do transporte ferroviário e a construção de navios, para “aproveitar o melhor das tecnologias russas”.
Lula, que viaja hoje ao Catar e também visitará a Espanha e Portugal, se reuniu também com o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, com quem abordou a aplicação do Plano de Ação da Associação Estratégica e a ampliação da cooperação econômica.