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Kremlin promove cerco digital aos russos

Não se trata de um problema na rede, mas de um esforço deliberado, multifacetado e de longo prazo das autoridades para colocar a internet dos russos sob o controle total do Kremlin

Redação Jornal de Brasília

22/08/2025 21h09

Foto: Sputnik/Alexei Druzhinin/Kremlin via Reuters

Vídeos no YouTube que não carregam. Uma visita a um site popular de mídia independente que leva a uma página em branco. Conexões de internet móvel que ficam fora do ar por horas ou dias. Navegar na internet na Rússia pode ser frustrante, complicado e até perigoso.

Não se trata de um problema na rede, mas de um esforço deliberado, multifacetado e de longo prazo das autoridades para colocar a internet dos russos sob o controle total do Kremlin. As autoridades adotaram leis restritivas e baniram sites e plataformas que julgam não estarem em conformidade com as leis. A tecnologia foi aperfeiçoada para monitorar e manipular o tráfego online.

Embora ainda seja possível contornar as restrições usando aplicativos de rede privada virtual (VPN), estes também são rotineiramente bloqueados. As autoridades restringiram ainda mais o acesso à internet nos últimos meses com o desligamento generalizado das conexões de internet móvel e a adoção de uma lei que pune os usuários por procurarem conteúdo que consideram ilícito.

No dia 13, elas também restringiram os telefonemas nos aplicativos de mensagens WhatsApp e Telegram, afirmando que a medida é necessária para combater a criminalidade, segundo a imprensa estatal. Ao mesmo tempo, preparam o lançamento de um novo aplicativo de mensagens “nacional” que provavelmente seja fortemente monitorado.

O presidente Vladimir Putin instou o governo a “sufocar” os serviços estrangeiros de internet e ordenou a seus funcionários que montassem uma lista de plataformas de Estados “hostis” que deveriam ser restritas.

Especialistas e defensores dos direitos civis disseram à Associated Press que a escala e a eficácia das restrições são alarmantes. As autoridades parecem ser mais hábeis nisso agora, em comparação com esforços anteriores, em grande parte fúteis, para restringir atividades online, e estão se aproximando de isolar a internet na Rússia.

Controle. A pesquisadora da Human Rights Watch Anastasiia Kruope descreve a abordagem de Moscou como “uma morte por mil cortes”. “Pouco a pouco, tenta se chegar a um ponto em que tudo é controlado.”

Os esforços iniciais do Kremlin para controlar o que os russos fazem, leem ou dizem online datam de 2011-12, quando a internet foi usada para desafiar a autoridade. Os meios de comunicação independentes floresceram e manifestações antigoverno coordenadas online eclodiram após eleições parlamentares contestadas e a decisão de Putin de se candidatar novamente à presidência.

A Rússia começou a adotar regulamentações que restringiam os controles da internet. Algumas bloquearam sites; outras exigiram que os provedores armazenassem registros de chamadas e mensagens, compartilhando-os com os serviços de segurança, se necessário, e instalassem equipamentos que permitissem às autoridades controlar e cortar o tráfego.

Empresas como Google ou Facebook foram pressionadas a armazenar dados de usuários em servidores russos, sem sucesso, e foram anunciados planos para uma “internet soberana” que poderia ser isolada do restante do mundo.

Processos. A popular plataforma de mídia social russa VK, semelhante ao Facebook, fundada por Pavel Durov muito antes de ele lançar o aplicativo de mensagens Telegram, ficou sob o controle de empresas aliadas ao Kremlin.

A Rússia tentou bloquear o Telegram entre 2018 e 2020, mas não conseguiu. Processos judiciais por postagens e comentários nas mídias sociais se tornaram comuns, mostrando que as autoridades estavam observando de perto o espaço online. Ainda assim, segundo especialistas, os esforços do Kremlin para controlar a internet estão longe de construir algo semelhante ao “Grande Firewall” da China, que Pequim usa para bloquear sites estrangeiros.

Após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022, o governo bloqueou as principais redes sociais, como Twitter, Facebook e Instagram, bem como o Signal e alguns outros aplicativos de mensagens. As VPNs também foram alvo, tornando mais difícil acessar sites restritos.

O acesso ao YouTube foi interrompido no ano passado, no que os especialistas chamaram de restrição deliberada por parte das autoridades. O Kremlin culpou o Google, proprietário do YouTube, por não manter seu hardware na Rússia. A plataforma é muito popular no país, tanto para entretenimento quanto para vozes críticas ao Kremlin, como o líder da oposição Alexei Navalni, morto na prisão no ano passado.

A Cloudflare, uma provedora de infraestrutura de internet, disse em junho que os sites que usam seus serviços estavam sendo restringidos na Rússia. O site de notícias independente Mediazona informou que vários outros provedores de hospedagem ocidentais populares também estão sendo inibidos.

O advogado cibernético Sarkis Darbinian, fundador do grupo russo de liberdade na internet Roskomsvoboda, disse que as autoridades têm tentado pressionar as empresas a migrar para provedores de hospedagem russos que podem ser controlados. Ele estima que cerca de metade de todos os sites russos seja alimentada por provedores de hospedagem e infraestrutura estrangeiros, muitos oferecendo melhor qualidade e preço do que os equivalentes nacionais. Um “número enorme” de sites e plataformas globais usa esses provedores, disse ele, então cortá-los significa que esses sites “automaticamente se tornam inacessíveis” na Rússia também.

Outra tendência preocupante é a consolidação dos provedores de internet e empresas que gerenciam endereços IP da Rússia, de acordo com um relatório da Human Rights Watch de 30 de julho.

Crimizalização. No ano passado, as autoridades aumentaram o custo para obter uma licença de provedor de internet de 7.500 rublos (cerca de R$ 486) para 1 milhão de rublos (mais de R$ 66,4 mil), e dados do governo mostram que mais da metade de todos os endereços de IP na Rússia são gerenciados por sete grandes empresas, com a Rostelecom, gigante estatal de telefonia e internet russa, respondendo por 25%.

O Kremlin está se esforçando “para controlar o espaço da internet na Rússia, censurar coisas e manipular o tráfego”, disse Kruope, da HRW. Uma nova lei criminalizou as pesquisas online sobre materiais “extremistas” amplamente definidos. Isso pode incluir conteúdo LGBT+, grupos de oposição, algumas músicas de artistas críticos ao Kremlin – e as memórias de Navalni, que foram designadas como extremistas este mês.

Defensores dos direitos humanos dizem que é um passo para punir os consumidores – não apenas os provedores – como na Belarus, onde as pessoas são rotineiramente multadas ou presas por ler ou seguir certos meios de comunicação independentes.

Stanislav Seleznev, especialista em segurança cibernética e advogado do grupo de direitos Net Freedom, não espera processos judiciais generalizados, já que rastrear pesquisas online individuais em um país de 146 milhões de habitantes continua sendo uma tarefa difícil. Mas mesmo um número limitado de casos poderia assustar muitos e afastá-los de conteúdos restritos, disse ele.

Outro passo importante é o bloqueio do WhatsApp, que, segundo o serviço de monitoramento Mediascope, tinha mais de 97 milhões de usuários mensais em abril. O WhatsApp “deve se preparar para deixar o mercado russo”, disse o legislador Anton Gorelkin, e um novo programa de mensagens “nacional”, o MAX, desenvolvido pela empresa de mídia social VK, tomaria seu lugar.

Estatal. O MAX, promovido como um balcão único para mensagens, serviços governamentais online, pagamentos e muito mais, foi lançado para testes beta, mas ainda não atraiu um grande número de seguidores. Mais de 2 milhões de pessoas se registraram até julho, informou a agência de notícias Tass.

Seus termos e condições dizem que ele compartilhará os dados dos usuários com as autoridades mediante solicitação, e uma nova lei estipula sua pré-instalação em todos os smartphones vendidos na Rússia. Instituições estatais, autoridades e empresas são ativamente incentivadas a migrar suas comunicações e blogs para o MAX.

Anastasia Zhirmont, do grupo de direitos digitais Access Now, disse que tanto o Telegram quanto o WhatsApp foram interrompidos na Rússia em julho, no que foi um teste de como novos bloqueios afetarão a infraestrutura da internet. Isso não é incomum. Nos últimos anos, as autoridades testaram regularmente o corte da internet do restante do mundo, às vezes resultando em interrupções em algumas regiões.

Darbinian acredita que a única maneira de fazer as pessoas usarem o MAX é “fechar, sufocar” todas as alternativas ocidentais. “Mas, novamente, hábitos não mudam em um ou dois anos. E esses hábitos foram adquiridos ao longo de décadas, quando a internet era rápida e gratuita”, disse ele.

Métodos. A mídia governamental e o regulador da internet Roskomnadzor usam métodos mais sofisticados, analisando todo o tráfego da web e identificando o que pode bloquear ou sufocar, disse Darbinian. Isso foi facilitado por “anos aperfeiçoando a tecnologia, anos assumindo e compreendendo a arquitetura da internet e os participantes”, bem como pelas sanções ocidentais e pelas empresas que deixaram o mercado russo desde 2022, disse Kruope, da Human Rights Watch.

A Rússia “ainda não chegou lá” no isolamento de sua internet do restante do mundo, disse Darbinian, mas os esforços do Kremlin estão “aproximando-a disso”.

Estadão Conteúdo

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