A organização Human Rights Watch (HRW) denunciou nesta sexta-feira que as forças de Muammar Kadafi utilizaram bombas de fragmentação fabricadas na Espanha em 2007 em seus ataques contra áreas residenciais de Misrata, cidade ao leste de Trípoli submetida a um intenso bombardeio há dois dias.
A HRW alertou para o “grave perigo” que essas armas representam para a população civil e destacou que, após investigar vários fragmentos das bombas, acredita que se tratem de MAT-120, fabricadas pela empresa espanhola Instalaza há quatro anos, um ano antes de a Espanha assinar o tratado internacional contra as bombas de fragmentação, indicou a organização em comunicado.
A ONG comprovou concretamente a explosão de três bombas desse tipo sobre um bairro residencial de Misrata na quinta-feira, depois que especialistas estudaram os destroços e entrevistaram várias testemunhas dos ataques de Kadafi.
Além disso, a HMV conta com os depoimentos de dois motoristas de ambulâncias que garantem que a cidade já havia sido palco de ataques com bombas de fragmentação anteriormente.
“É horrível que a Líbia use este tipo de armas, especialmente em uma área residencial. Elas representam um risco enorme para os civis, tanto durante os ataques, por sua natureza indiscriminada, quanto depois, porque fragmentos do artefato ficam espalhados sem explodir e continuam sendo perigosos”, indicou o diretor da divisão dedicada ao armamento, Steve Goose.
A maioria dos países assinou a Convenção contra as Bombas de Fragmentação, que se transformou em lei internacional vinculativa em agosto de 2010, mas, segundo a HRW, a Líbia não participou do acordo e já havia utilizado bombas de fragmentação de fabricação soviética nos anos 1980 no conflito no Chade.
Segundo a organização, no final de 2008 a Espanha destruiu suas reservas de 1.852 projéteis MAT-120, que continham um total de 38.892 munições, após assinar o tratado internacional em 3 de dezembro de 2008 e ratificá-lo em 17 de junho de 2009.
“Esse tipo de armas abrem no ar e deixam escapar 21 munições sobre uma ampla área”, explica a HRW, que detalha que elas “se desintegram em fragmentos, soltando balas de metal fundido capazes de penetrar em veículos blindados”.
Nesta sexta-feira, Misrata foi cenário de novos ataques por parte das forças leais a Kadafi, que deixaram pelo menos 22 pessoas mortas e cerca de 50 feridas em um bombardeio que também afetou a cidade de Ghnaimiya, segundo informou o canal de televisão “Al Jazeera”.
Desde a entrada em vigor da Convenção contra as Bombas de Fragmentação, o uso desse tipo de armas por parte de Kadafi sobre Misrata, que está controlada pelos rebeldes líbios, é a segunda ocasião em que são registrados ataques deste tipo no mundo.
Segundo a HRW, em 6 de abril deste ano foi concluído que a Tailândia também usou esse tipo de munição sobre território do Camboja durante um conflito sobre a fronteira em fevereiro.