O ministro de Assuntos Exteriores iraniano, Manouchehr Mottaki, ressaltou hoje a necessidade de ampliar as próximas negociações sobre o programa nuclear de seu país a outros atores internacionais, como o Brasil e a Turquia, signatários com o Irã do Comunicado de Teerã sobre troca de material nuclear.
O chefe da diplomacia iraniana está em visita oficial à Espanha e se reuniu ontem com o ministro de Assuntos Exteriores espanhol, Miguel Ángel Moratinos, com quem abordou, entre outros temas, a situação do programa nuclear de Teerã.
Na reunião Moratinos pediu a Mottaki que o Irã retorne às negociações com a comunidade internacional sobre esse controvertido programa nuclear, “para resolver por esta via todas as questões pendentes”, segundo destacou em um comunicado do Ministério de Assuntos Exteriores espanhol.
Em entrevista coletiva realizada hoje em Madri, Mottaki adiantou que o próximo diálogo sobre o programa nuclear iraniano não deve acontecer até depois do próximo mês do Ramadã (de 10 de agosto a 10 de setembro) e que deve haver “novas estruturas para essas negociações”, com “a assistência de outras partes”, disse.
Mottaki indicou hoje que entre os presentes nas novas negociações poderiam estar o chamado Grupo de Viena (formado pelos Estados Unidos, França, Rússia e a Agência Internacional de Energia Atômica), o grupo 5+1 (integrado pelos cinco membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas mais a Alemanha) e, acrescentou, também a Turquia e o Brasil.
Lembrou a assinatura do Comunicado de Teerã com Brasilia e Ancara em junho, que prevê o envio à Turquia de urânio iraniano enriquecido a 3,5 % para receber em troca combustível nuclear enriquecido até 20%, nível adequado para usos civis, sobretudo médicos, e não para empregá-los na fabricação de armas atômicas.
Há poucos dias, o próprio Mottaki disse que estavam sendo realizados contatos com o Brasil e a Turquia para fazer uma reunião trilateral na qual concretizar esse plano de troca nuclear.
Até agora e apesar das pressões internacionais, resoluções e sanções das Nações Unidas, o Irã conseguiu produzir 20 quilos de combustível nuclear com uma riqueza de 20%, segundo reconheceu o próprio regime dos aiatolás mês passado.
Estes dados elevaram o nível de preocupação da comunidade internacional, perante o risco de que Teerã possa estar desviando sua tecnologia nuclear à produção de material destinado a bombas atômicas.
O último país a expressar essa preocupação foi Rússia, tradicional aliada do Irã, tanto desde sua posição como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas (junto à China, EUA, França e Reino Unido), como no seio da AIEA e outros organismos competentes na matéria.
“O Irã está cada vez mais perto de possuir um potencial que pode ser empregado para criar armas nucleares”, disse ontem em Moscou o presidente russo, Dmitri Medvedev.
O líder russo considerou pouco eficaz a imposição de sanções internacionais ao Irã, mas defendeu a última resolução da ONU (do dia 9 de junho) que recebeu respaldou Moscou, para surpresa de Teerã.
“As últimas palavras de Medvedev são falsas”, afirmou Mottaki, que destacou que “nos últimos meses” o Irã “não esteve de acordo” com algumas das decisões adotadas pela Rússia.
“Não sabemos qual é o objetivo final que se esconde por trás dessas palavras”, acrescentou o responsável iraniano, que insistiu que Teerã “manterá sua posição” sobre seu programa nuclear.
No Irã, “não vamos aceitar menos do que nos corresponde”, afirmou Mottaki.
O Irã “foi um dos pais fundadores do Tratado de Não-Proliferação Nuclear” e é “membro comprometido” da AIEA mas, ao mesmo tempo que tem esses compromissos, os países “têm seus direitos”, daí que o Governo iraniano decidisse buscar “por sua conta” essa capacidade nuclear civil, acrescentou o ministro de Exteriores.