São Paulo, 13 – A relação entre China, Japão e Coreia do Sul deve ganhar fôlego diante da insegurança provocada pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump no Pacífico. Especialistas ouvidos pelo Estadão consideram que distância política, provocada por anos de rivalidade em lados antagônicos, seja colocada em segundo plano em prol do bem estar econômico dos territórios.
Os países asiáticos costumam manter separados as relações políticas e de mercado. Então apesar das diferenças históricas, o Japão e a Coreia do Sul têm uma interação econômica muito sólida com a China. De acordo com o Observatório de Complexidade Econômica (OEC, siga em inglês), em maio de 2025, a China exportou para Japão e Coreia do Sul US$ 27,6 bilhões, e importou dos dois países 27 bilhões.
“Eu acredito que os três vão fortalecer muito a relação comercial, não a diplomática. Os três mercados se reconhecem e veem o potencial um no outro de encontrar o mercado consumidor que a Europa e os Estados Unidos não oferecem, tanto no volume de população, quanto no poder de compra”, explica Renato Peneluppi, advogado especializado em Administração Pública Chinesa associado ao think tank Center for China and Globalization (CCG).
O processo de aproximação entre os países asiáticos não é algo recente e vem se intensificando desde o primeiro governo Trump, entre 2017 e 2021. Período em que os Estados Unidos saíram do acordo Transpacífico, que tinha o objetivo de reduzir as tarifas alfandegárias sobre bens e serviços entre os países membros, abrindo espaço para que os países asiáticos criassem um acordo de cooperação econômica regional.
Apesar de uma expectativa do fortalecimento das trocas comerciais entre os asiáticos, a aproximação com os Estados Unidos, principalmente em relação à cooperação militar, deve ser mantida pelas desconfianças políticas em relação à China.
“Um pouco de intimidação contra a China e proteção de alguma maneira. Eu também acho que os países vão ter um pouco menos de confiança nos Estados Unidos”, diz o diplomata aposentado e ex-embaixador em Pequim e Kuala Lumpur, Marcos Caramuru.
A diminuição da confiança na política americana é provocada pela instabilidade do governo Trump que assume um distanciamento dos países aliados, além de dificultar o diálogo com outros governos
Ambiente instável
Além da insegurança nas relações com os Estados Unidos, Renato Peneluppi afirma que na Ásia há um ambiente de descrença na supremacia americana ao considerarem que Trump contribui para a dissolução econômica do país.
A relação entre os países asiáticos e Washington ainda é atravessada pelas ameaças tarifárias do presidente estadunidense Em julho de 2025, Trump reduziu a tarifa de 25% para Japão e Coréia do Sul para 15% após acordos de investimentos de bilhões de dólares em projetos americanos.
Os acordos fechados amenizam as tensões imediatas com o governo Trump, principalmente em um momento de transição, com um novo presidente na Coreia do Sul, Lee Jae-myung, e o primeiro-ministro enfraquecido do Japão, Shigeru Ishiba, podendo abrir espaço para extrema-direita no parlamento.
Apesar disso, a longo prazo, a política norte-americana se mostra insegura a depender do presidente que ocupa a Casa Branca, como observado nos governos Barack Obama (2009-2017), Joe Biden (2021-2025) e Donald Trump. Reforçando não só as relações da China com o Japão e a Coreia do Sul, mas também com outros países do mundo, como o Brasil.
“No longo prazo, talvez a economia aprofunde os laços e torne o conflito mais custoso. E de fato, desde a 2ª Guerra Mundial, a Coreia do Sul e Japão intensificaram as relações econômicas. Uma guerra entre eles não tem interesse para ninguém”, supõe Alexandre Uehara, doutor em Ciência Política e coordenador do Centro Brasileiro de Estudos de Negócios Internacionais e Diplomacia Corporativa da ESPM.
Porém a relação entre o Japão e a Coreia do Sul com os Estados Unidos não vai mudar tão rapidamente. Marcos Caramuru afirma que a segurança dos dois países ainda depende de Washington por temer Pequim.
As questões históricas ainda não resolvidas diplomaticamente deixaram cicatrizes profundas entre Pequim, Tóquio e Seul. Como as questões fronteiriças entre o Japão e a China, e a disputa da delimitação do mar territorial entre o Japão e a Coreia, cita Caramuru. “Enquanto não se resolver, as desconfianças não vão terminar”.
A tensão entre os países não é algo recente. Após a 2ª Guerra Mundial houveram momentos de maior e menor tensões entre China, Japão e Coreia do Sul. Atualmente, os três países estão colocando as questões políticas em segundo plano para evitar que haja impacto mais forte negativo na área econômica.
“Eu diria que neste momento as relações não estão tão tensas como estavam no passado. E neste momento, pelo fato dos três países terem um antagonista comum que são os Estados Unidos, acaba fazendo com que eles busquem aproximação”, explica Uehara
Ainda que em menor escala, a tensão é frequente no território asiático. O exército norte-coreano atuando junto com o exército russo na guerra da Ucrânia provoca uma maior instabilidade com a Coreia do Sul, aliada dos Estados Unidos. Peneluppi explica que Washington segue explorando essa disputa geopolítica na península coreana.
O Japão, mesmo com um exército próprio, convive com a presença de tropas americanas desde a Grande Guerra, abrigando maior número de soldados americanos fora da América.
Para Caramuru, a longo prazo, a China vai querer a hegemonia na sua própria região, com menos forças militares americanas ou nenhuma.
Estadão Conteúdo