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IIF: acordo comercial EUA-UE marca avanço do bilateralismo e fragiliza sistema multilateral

O IIF destaca que “a maioria dos bens da UE que entram nos EUA está agora sujeita à nova tarifa de 15%, com exceções, como semicondutores”

Redação Jornal de Brasília

01/08/2025 22h06

Foto: Yves Herman / Reuters

São Paulo, 01 – O recente acordo comercial entre Estados Unidos e União Europeia representa “uma mudança contínua de um sistema multilateral baseado em regras para uma conveniência bilateral baseada em poder”, segundo avaliação do Instituto de Finanças Internacionais (IIF). Em relatório assinado por Marcello Estevão e Ugras Ulku, a entidade alerta que a nova dinâmica nas negociações internacionais pode fragilizar ainda mais a arquitetura do comércio global.

O IIF destaca que “a maioria dos bens da UE que entram nos EUA está agora sujeita à nova tarifa de 15%, com exceções, como semicondutores”, enquanto os exportadores americanos terão “tarifas zero para acesso ao mercado europeu”, criando um ambiente de “acesso assimétrico aos mercados”.

Apesar de compromissos da UE de investir US$ 600 bilhões e comprar US$ 750 bilhões em energia dos EUA, o relatório ressalta que “faltam prazos concretos ou detalhamento setorial”, o que coloca em dúvida o impacto real das promessas. A compra de gás natural liquefeito (GNL) dos EUA, por exemplo, “se alinha ao objetivo de longo prazo da UE de reduzir a dependência da Rússia”, mas pode “entrar em conflito com a agenda climática do bloco”.

Setores europeus estratégicos, como automotivo, siderúrgico e farmacêutico, “não receberam isenções, apesar da forte pressão de Berlim, Bruxelas e Dublin”. A indústria automotiva alemã, em especial, “enfrenta um choque direto de competitividade”, diz o IIF.

Embora o acordo “evite uma escalada imediata para uma guerra comercial total” e traga certa estabilidade temporária, o IIF avalia que as concessões obtidas pelos EUA podem ser vistas como “uma derrota estratégica” para a Europa, que “lutou para garantir termos compatíveis com seu peso econômico”.

Segundo o relatório, este acordo não é um caso isolado: “acordos recentes com Japão, países da ASEAN e Reino Unido seguiram o mesmo roteiro”, com ameaças tarifárias sendo usadas como ferramenta de pressão bilateral. O resultado, alerta o IIF, é “um mosaico crescente de acordos bilaterais que marginalizam o princípio da nação mais favorecida e injetam mais volatilidade nos fluxos comerciais globais”.

O princípio da nação mais favorecida é um conceito fundamental no comércio internacional, estabelecido pela Organização Mundial do Comércio, que estabelece que um país membro da OMC deve conceder a todos os outros membros o mesmo tratamento comercial favorável que oferece ao seu parceiro comercial mais favorecido.

Estadão Conteúdo

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