A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, visitou nesta sexta-feira Islamabad com objetivo de dar maior atenção à luta antiterrorista e à guerra afegã para recompor a relação com o Paquistão, em crise após a morte de Osama bin Laden.
“Não há absolutamente nenhuma prova de que alguém do mais alto escalão do Governo paquistanês soubesse que Osama bin Laden vivia a milhas de onde estamos nesta sexta-feira”, declarou Hillary em entrevista coletiva depois de se reunir com a cúpula civil e militar do Paquistão.
Embora Hillary tenha descartado que as autoridades paquistanesas estivessem sabendo da presença do chefe da Al Qaeda na cidade onde comandos americanos o mataram em 2 de maio, ela fez várias advertências aos interlocutores.
“Muitos dos mais impiedosos terroristas, incluindo os líderes da Al Qaeda mais importantes, viveram no Paquistão”, explicou.
A chefe da diplomacia americana revelou que a parte paquistanesa admitiu que “alguém, em algum lugar” conhecia o paradeiro de Bin Laden antes da operação na cidade de Abbottabad, mas não deu maiores detalhes a respeito.
“Esta é uma visita especialmente importante porque chegamos a um ponto de inflexão. Osama bin Laden está morto, mas a Al Qaeda e seu consórcio do terror segue representando uma ameaça séria para ambos”, alertou, em referência aos respectivos países.
A secretária de Estado exigiu ainda ao Paquistão que não agite o “antiamericanismo” nem se refugie nas “teorias da conspiração”, em alusão às criticas aos EUA e ao ceticismo popular sobre a operação dos EUA contra Bin Laden.
Segundo uma pesquisa britânica, 66% dos paquistaneses não acreditam que os EUA mataram o chefe da Al Qaeda na operação, executada por quatro helicópteros das forças de elite que chegaram até Abbottabad, cidade próxima da capital.
Acompanhada pelo chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, Mike Mullen, que em poucos meses deixará o cargo, Hillary declarou nesta sexta-feira ter fixado com os paquistaneses uma série de “ações específicas” na luta antiterrorista, embora não as detalhou.
E também apostou pela cooperação tanto em “desmantelar” à rede terrorista Al Qaeda no Paquistão quanto no processo de diálogo com os grupos insurgentes no Afeganistão, onde Islamabad está “legitimado” para exigir seu protagonismo.
“Há um impulso em direção à reconciliação política no Afeganistão, mas a insurgência segue operando a partir de seus santuários no Paquistão”, insistiu.
Washington está há tempos pressionando o Paquistão para que se desfaça de seus supostos vínculos com a rede fundamentalista Haqqani, que faz violentas ações contra as tropas estrangeiras no Afeganistão a partir de sua base na região tribal paquistanesa do Waziristão do Norte, onde os norte-americanos querem uma operação antitalibã.
Apesar disso, Hillary elogiou os sacrifícios do Paquistão na luta contra o terror e destacou como exemplo de colaboração o fato de os serviços secretos norte-americanos (CIA) tenham conseguido chegar até Bin Laden com permissão paquistanesa.
Mais circunspecto, o almirante Mullen tomou a palavra no comparecimento diante da imprensa e reconheceu a “tensão” entre os países.
“Precisamos reconstruir a confiança entre os dois Exércitos”, declarou Mullen, que durante os últimos anos manteve uma boa relação com a cúpula militar paquistanesa.
Hillary e Mullen se reuniram durante a visita com o presidente do Paquistão, Asif Alí Zardari, o chefe do Exército, Ashfaq Pervez Kiyani, e o diretor dos serviços secretos (ISI), Ahmed Shuja Pasha.
Em comunicado emitido ao fim do encontro, Zardari contou ter dito a Hillary “sobre o sentimento popular em assuntos como a soberania nacional”, em linha com o protesto emitido pelo Parlamento dias após a operação contra Bin Laden.
Superada a surpresa inicial pela ação, tanto o Exército quanto o Governo paquistaneses criticaram os EUA por terem violado sua soberania ao eliminar Bin Laden dentro de seu território, mas pouco se falou sobre a presença do líder da Al Qaeda tão perto de Islamabad.