O Governo e as principais forças políticas da Espanha consideraram hoje “insuficiente” o novo cessar-fogo anunciado pela organização terrorista ETA e exigiram do grupo o abandono total e definitivo da violência, que causou mais de 800 mortes nas últimas cinco décadas.
O ministro do Interior espanhol, Alfredo Pérez Rubalcaba, afirmou, em sua primeira avaliação do comunicado no qual o grupo terrorista anunciou o fim de “ações armadas ofensivas”, que é um passo “insuficiente”, porque o grupo terrorista “tem de deixar a violência totalmente, para sempre”.
Por isso, o Executivo espanhol, presidido por José Luis Rodríguez Zapatero, não vê motivos para mudar “nem um vírgula” em sua política antiterrorista, acrescentou o titular de Interior. Rubalcaba considerou ainda que o cessar-fogo anunciado pela ETA é “uma pausa técnica” para se reconstituir.
Na mesma linha, a vice-presidente do Governo, María Teresa Fernández de la Vega, disse que a declaração é “decepcionante”. Para ela, nenhuma outra ação serve, além do abandono da violência por parte do grupo terrorista.
“É a única saída possível. A ETA sabe disso e todos os cidadãos têm de saber. Essa é a posição do Governo, acho que é a posição de todos os cidadãos, a de todas as forças políticas e essa é a mensagem que hoje queremos transmitir de maneira firme e clara”, assinalou em declarações à emissora “Punto Radio”.
As principais formações políticas espanholas se mostraram cautelosas diante do anúncio da organização terrorista. Elas também consideraram insuficiente a mensagem da ETA.
Mariano Rajoy, líder do conservador Partido Popular (PP), o principal da oposição na Espanha, assinalou que o único comunicado que interessa receber da ETA é o de “sua dissolução”. Ele reiterou que o Governo terá seu apoio caso mantenha sua atual política antiterrorista.
“Já temos experiências suficientes na Espanha para fazer caso” de outros comunicados da ETA, indicou o dirigente popular. Segundo ele, o vídeo e o comunicado do grupo terrorista emitido no domingo pela emissora britânica “BBC” “não tem nenhum valor e não muda nada”.
Para o presidente do PP no País Basco, Antonio Basagoiti, o que a ETA procura é uma “trégua eleitoral”, de modo que o grupo Batasuna (ilegal) e outros considerados braços políticos deste possam concorrer às próximas eleições municipais que serão celebradas em maio de 2011.
O Batasuna e outras formações que a Justiça espanhola considera vinculadas à ETA foram ilegalizadas em virtude da Lei de Partidos que permite proibir os partidos políticos que apoiem ou colaborem com o terrorismo, o que impede que possam concorrer às eleições.
O novo anúncio de cessar-fogo ocorre após mais de um ano sem atentados com mortes e num momento em que os analistas consideram que a ETA está encurralada e muito debilitada pelas várias prisões de seus membros nos últimos meses, muitas delas fruto da cooperação policial com outros países, principalmente França e Portugal.
A ETA – sigla de Pátria Basca e Liberdade – foi fundada em 31 de julho de 1959 com o objetivo de buscar a independência do País Basco.
Em seu meio século de atividades, assassinou 829 pessoas e cometeu dezenas de sequestros e milhares de extorsões.
O cessar-fogo anunciado no domingo é o 11º anunciado pela ETA desde 1981. O último datava de março de 2006 e representou a abertura de um processo para tentar uma saída negociada com o grupo por parte do Governo de Zapatero, mas que foi frustrado quando o grupo rompeu a trégua em 5 de junho de 2007.
Mas, a ETA já havia rompido de fato o cessar-fogo com um atentado no aeroporto de Madri-Barajas em 30 de dezembro de 2006, no qual morreram dois cidadãos equatorianos.
Para o presidente do Governo regional basco, o socialista Patxi López, o anúncio da ETA é tão insuficiente que “nem sequer dá resposta ao que seu próprio entorno reivindicava ultimamente”.
Para o Partido Nacionalista Basco (PNV), a última declaração da ETA esconde com seu “texto confuso” a incapacidade da organização terrorista para assumir seu “enorme fracasso”.
“O comunicado da ETA não é o que a sociedade basca espera e continua esperando” porque não declara o “fim total de sua atividade”, inclusive as extorsões e ameaças, indicou o presidente do PNV, Iñigo Urkullu.