O governo britânico denunciou, nesta quinta-feira (11), episódios de “violência racista” na Irlanda do Norte, principalmente em Belfast, após uma segunda onda de distúrbios, alimentados por um ataque com faca atribuído a um refugiado sudanês.
O ministro britânico para a Irlanda do Norte, Hilary Benn, denunciou a “violência racista” e um “clima de medo”, com pessoas “intimidadas e expulsas de suas casas, devido à cor de sua pele, por valentões mascarados”.
Na noite de quarta-feira, “doze policiais ficaram feridos, alguns por coquetéis molotov”, em Glengormley, bairro ao norte de Belfast, e na cidade de Portadown, ao sul da capital, declarou o subdelegado Ryan Henderson.
Dezesseis pessoas foram detidas durante os distúrbios. Duas delas, um homem de 28 anos e uma mulher de 24, foram indiciadas e comparecerão à Justiça nesta quinta-feira.
“Esse comportamento violento de uma minoria de vândalos não será tolerado”, acrescentou Henderson, assegurando que a polícia voltará “às ruas” na noite desta quinta com reforço de efetivo.
– Distúrbios anti-imigração –
Os distúrbios anti-imigração na Irlanda do Norte eclodiram na terça e na quarta-feira após a divulgação de um vídeo de um ataque ocorrido na segunda-feira: as imagens mostram o agressor sentado sobre um homem caído no chão e sangrando, enquanto o esfaqueia.
A vítima do ataque, Stephen Ogilvie, perdeu um olho e permanece internada. Seu estado de saúde estava “melhorando”, disse o líder do Partido Unionista Democrático (DUP), Gavin Robinson, nesta quinta-feira, após se reunir com a família.
A família de Ogilvie fez um apelo à calma após a tragédia, afirmando que a violência “não é bem-vinda”.
Na noite de quarta-feira, uma enfermeira que se dirigia ao trabalho no Hospital de Ulster, a leste de Belfast, foi “perseguida e intimidada”, segundo a organização que administra esse centro de saúde. O episódio foi classificado como “ataque racista”.
O Centro Islâmico de Belfast, a principal mesquita da Irlanda do Norte, teve de fechar as portas por motivos de segurança na terça e na quarta-feira, segundo seu presidente, Mohammed Arshed.
O suspeito do ataque, Hadi Alodid, um sudanês de 30 anos, compareceu na quarta-feira a uma audiência com um juiz em Belfast. O refugiado foi colocado em prisão preventiva até uma próxima audiência em 8 de julho.
As motivações do ataque ainda são desconhecidas, mas a polícia norte-irlandesa descartou a hipótese de terrorismo.
O vídeo do ataque foi compartilhado on-line na noite de segunda-feira, uma hora após os fatos, e foi rapidamente difundido por muitas contas anti-imigração.
O gabinete do primeiro-ministro britânico afirmou que o governo prevê “atualizar a lei de segurança on-line, exigindo que as plataformas ajam com maior rapidez para remover conteúdos ilegais em tempos de crise”.
– Raiva compartilhada –
“As pessoas não querem ficar em casa depois de algo assim”, disse à AFP Brendan, um encanador de 50 anos que participou de um protesto na terça-feira.
“Sou contra a violência. Já tivemos o suficiente disso aqui durante 30 ou 40 anos, com bombas e assassinatos”, acrescentou, em referência às três décadas de conflito na Irlanda do Norte, que terminaram em 1998 com o Acordo da Sexta-Feira Santa.
As manifestações violentas desta semana ocorreram principalmente em bairros unionistas, defensores da permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido e majoritariamente protestantes.
Mas, para John, natural dos bairros onde aconteceram as manifestações, a raiva é compartilhada por unionistas e republicanos, que desejam a mudança da província britânica para a Irlanda, e que são principalmente católicos.
John se declarou contrário ao “aumento do fluxo de migrantes através da Europa”.
Personalidades da extrema direita, como o ativista Tommy Robinson e Elon Musk, proprietário do X, convocaram manifestações nas redes sociais.
Em 2024 e 2025, a Irlanda do Norte também foi cenário de violentas manifestações anti-imigração.
AFP