As forças favoráveis ao presidente em fim de mandato da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, reassumiram o controle dos bairros de Le Plateau e Cocody, na capital econômica do país, Abidjan, informaram neste sábado à Agência Efe moradores na região.
O subsecretário-geral da ONU para as Operações de Paz, Alain Le Roy, advertiu na sexta-feira à noite sobre a estratégia de Gbagbo, quem chegou a cogitar uma negociação nesta semana para que suas forças ganhassem posições.
“Na terça-feira entraram em contato conosco para negociar uma saída pacífica para o conflito. Foi um engano suas forças reforçarem suas posições”, indicou Le Roy durante uma entrevista coletiva nas Nações Unidas.
O avanço das tropas fiéis a Gbagbo minou o ânimo de parte da população, que via no discurso de quarta-feira do presidente eleito, Alassane Ouattara, e no controle por parte de suas tropas destas duas áreas chaves da cidade um indício de retorno à normalidade.
Além disso, a “Rádio Televisão da Costa do Marfim (RTI)”, cujo sinal foi cortado devido aos bombardeios aéreos da Missão das Nações Unidas no país africano (Onuci) e das forças da operação francesa “Licorne” – e que é um elemento chave na campanha de propaganda do grupo de Gbagbo -, voltou a transmitir desde sexta-feira.
No meio deste esforço para segurar-se na Presidência da Costa do Marfim, Gbagbo lançou neste sábado, a partir do bunker onde se encontra entrincheirado, um chamado ao povo marfinense “à resistência para obstaculizar este enésimo golpe”, em referência ao assédio ao que têm submetido às tropas de Ouattara.
Em comunicado divulgado neste sábado em Abidjan e assinado por seu porta-voz, Ahoua don Mello, Gbagbo pediu aos marfinenses continuar lutando “pela libertação da Costa do Marfim e da África”, ao tempo que manifestou seu pesar “pelo sofrimento imposto (ao povo marfinense) por Ouattara e seus terroristas”.
Além disso, expressou “a firme convicção de uma Costa do Marfim gloriosa, orgulhosa e próspera renascerá das ruínas”.
Quanto a seu rival, o líder assinalou que “não foi eleito pelo povo marfinense, nem empossado pelo Conselho Constitucional. Também não prestou juramento. Por consequência todas as suas decisões são nulas e carecem de validade”.
Por sua vez, os moradores de Abidjan saíram às ruas para comprar mantimentos, cujos preços chegaram a quintuplicar.
“Esperemos que os preços voltem à normalidade na segunda-feira e que possamos retomar o trabalho”, indicou à Efe um morador do bairro de Riviera.
Uma relativa sensação de normalidade foi dada pela companhia aérea francesa Air France, que anunciou neste sábado a retomada dos voos a partir de Paris com destino a Abidjan.
Um porta-voz da companhia aérea informou que nesta manhã já chegou a Abidjan um avião da Air France que havia saído na sexta-feira à noite do aeroporto parisiense de Charles de Gaulle e precisou que prevê que continuem os voos à Costa do Marfim nas próximas horas.
Enquanto isso, um relatório divulgado neste sábado pela Human Rights Watch (HRW) aponta as forças leais a Ouattara como responsáveis pelo massacre de “centenas de civis”, enquanto os que apoiam a Gbagbo assassinaram “mais de cem” seguidores do primeiro.
HRW indicou que os seguidores de Ouattara atearam fogo ao menos a dez povoados do oeste do país e ressaltou que Ouattara deve abrir uma investigação “urgente” enquanto tem poder para analisar os “graves abusos” cometidos pelos grupos que o apoiam.
A atual crise marfinense começou após o segundo turno das eleições presidenciais, em 28 de novembro, quando Gbagbo, presidente da Costa do Marfim desde 2000, se negou a admitir sua derrota frente a Ouattara e a ceder o poder, apesar da forte pressão internacional para que deixasse a Presidência.