JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
FOLHAPRESS
Dois adolescentes morreram na Alemanha devido a fogos de artifício nas celebrações de Ano-Novo. Outras quatro mortes relacionadas a incêndios são investigadas. Apenas em Berlim, 420 pessoas foram detidas por lançar foguetes e rojões em áreas proibidas ou contra a polícia. O saldo, ainda assim, é inferior ao de 2025, quando o debate sobre proibir a pirotecnia privada no Réveillon ganhou força no país.
A passagem do ano foi particularmente violenta em alguns pontos da Europa. Além do incêndio em Crans-Montana, na Suíça, que deixou ao menos 40 mortos e pode ter começado com fogos de artifício dentro de um bar, Amsterdã e diversas cidades holandesas viveram uma noite de caos.
Foi a última celebração de Ano-Novo com fogos no país, proibidos por decisão do Parlamento holandês a partir do próximo ano. Houve registro de incêndios, feridos e prisões. Ao menos duas pessoas morreram.
Uma igreja histórica, Vondelkerk, perdeu uma das torres para as chamas. O prédio do século 19, no centro da capital holandesa, corre risco de desabamento. As autoridades investigam se o incêndio foi provocado por fogos de artifício.
Quase tudo no Ano-Novo girou em torno deles. Perto da fronteira com a Bélgica, policiais foram recebidos com coquetéis molotov e pedras, arrancadas do calçamento.
Talvez não nessa proporção, a confusão era esperada. A iminente proibição fez os holandeses gastarem EUR 128 milhões (R$ 812,4 milhões) com fogos nesta virada, contra EUR 119 milhões da celebração anterior. A importação ilegal também disparou, com 112 toneladas de material apreendido até último mês.
O incentivo indireto ao comércio clandestino é um dos focos do debate que ocorre na Alemanha, onde a compra e o uso de fogos já é bastante limitado. A compra só é permitida a partir de 29 dezembro, o que provoca uma verdadeira correria às lojas e às fronteiras -o comércio temporário de fogos é um negócio rentável em localidades polonesas e tchecas próximas à divisa.
O lançamento dos fogos só é permitido por horas do dia 31 à madrugada do dia 1°, transformando algumas áreas do país em verdadeiras praças de guerra. Grupos rivais se enfrentam com rojões e foguetes; policiais e bombeiros, normalmente acionados para intervir nos incidentes, também entram na mira.
Nesta última passagem de ano, 30 agentes saíram com ferimentos leves da operação em Berlim, que reuniu 3.800 policiais. Iris Spranger, senadora do Interior da cidade-estado, pasta equivalente a uma secretaria estadual, elogiou o trabalho das forças de segurança.
“A combinação de prevenção, medidas preliminares abrangentes, como verificações e buscas, e a intervenção decisiva da polícia de Berlim na véspera do Ano-Novo provou ser a abordagem correta”, declarou a senadora na manhã desta quinta-feira (1°).
Segundo balanço da operação, 220 mil fogos foram apreendidos, quase metade de categorias perigosas, como bombas esféricas e foguetes. Artefato desse tipo causou comoção no ano passado. Um influenciador de origem palestina publicou em rede social um vídeo em que aparece lançando um foguete e provocando o incêndio de um prédio.
A postagem gerou indignação, e o influenciador acabou sendo preso dias depois no aeroporto de Berlim ao tentar embarcar para o exterior. No total, a passagem de 2024 para 2025 deixou cinco mortes relacionadas a fogos de artifício e dezenas de feridos.
O último Réveillon, que ainda não tem um número oficial de vítimas, colecionou relatos. Em um único hospital de Berlim, 30 pessoas foram atendidas com ferimentos graves nas mãos; oito eram crianças ou adolescentes. Onze bombeiros foram atacados com rojões. Ambulâncias foram acionadas 970 vezes. Uma estação do metrô de superfície pegou fogo. Sete indivíduos foram presos por agressão qualificada.
E, naturalmente, os pedidos de banimento total se renovaram. Depois da recomendação da Associação Médica Alemã, feita no último fim de semana, o sindicato que representa os policiais, a maior e mais antiga associação ambiental alemã e outras 64 entidades exigiram nesta quinta-feira o veto definitivo dos fogos de artifício no país.
À preocupação com segurança pública somam-se os potenciais efeitos sobre pessoas vulneráveis, animais, natureza e poluição do ar. Não há discussão sobre fogos silenciosos, como ocorre no Brasil.
O porta-voz do sindicato de policiais, em entrevista ao jornal Bild, cobrou também mais agilidade do Judiciário nas punições. A responsabilização de quem atira os fogos não é fácil de determinar, o que reforça a contestação à legislação, que é federal.
Spranger, a senadora, defendeu pelo menos mais autonomia sobre o assunto aos Estados. Isso facilitaria, por exemplo, a delimitação das áreas em que o lançamento dos artefatos é permitido. Em Berlim, o veto dos foguetes na Alexanderplatz, um dos pontos turísticos mais movimentados da capital, foi celebrado por moradores e turistas.