O Fundo Monetário Internacional (FMI) buscou nesta quinta-feira marcar distância da crise burocrática provocada pela renúncia do francês Dominique Strauss-Kahn ao cargo de diretor-gerente do organismo, envolvido em um escândalo sexual, e reafirmou seu “compromisso” como instituição financeira.
“As investigações criminais quanto ao ex-diretor-gerente Dominique Strauss-Kahn estão separadas da instituição”, assinalou a porta-voz do FMI, Caroline Atkinson, na primeira entrevista coletiva do organismo internacional após a renúncia do alto funcionário na quinta-feira passada. “Devemos aprender com as situações complicadas (…) e olhar para frente”.
DSK, como Strauss-Kahn é conhecido por suas iniciais, se encontra sob prisão domiciliar em Nova York, acusado de tentativa de estupro contra uma camareira do hotel onde se hospedava no último dia 14, acusações pelas quais poderia enfrentar até 25 anos de prisão nos Estados Unidos.
Desde a renúncia de Strauss-Kahn, de 62 anos, o Fundo não tinha realizado nenhuma entrevista coletiva e a comunicação com a mídia tinha sido limitada ao envio de notas de imprensa.
Atkinson, em seu discurso quinzenal aos jornalistas, manteve a habitual cautela do FMI e evitou comentar o escândalo de seu ex-chefe, diante das várias perguntas dos repórteres. Ela alegou se tratar de um “processo judicial aberto” e considerou “inadequado” avaliar a situação de Strauss-Kahn.
“Há sérios acusações criminais (contra ele), mas, por enquanto, não há condenação”, foi tudo o que comentou Atkinson a respeito. “Não somos perfeitos. Devemos pensar como podemos fazer para nos comportar melhor. Não acho que haja uma falha do sistema, devemos nos mostrar transparentes e claramente quem somos e como nos comportamos”.
Para a porta-voz do FMI, o organismo nos últimos dias expressou seu “compromisso e experiência ao continuar com seu trabalho financeiro internacional”.
“O que cabe é discutir como é o FMI. Devemos seguir em frente e manter nossas operações com os diversos países com os quais trabalhamos”, destacou.
A saída repentina de Strauss-Kahn do cargo de diretor-gerente do FMI suscitou a disputa de poder latente no organismo internacional entre os países emergentes e os desenvolvidos.
Há anos exigindo uma maior representatividade no FMI com o argumento do crescente peso mundial das economias em desenvolvimento, os países emergentes viram agora a oportunidade para desafiar a tradição que concedia o cargo de diretor do Fundo a um cidadão europeu.
Este pacto não escrito foi cumprido na prática, em virtude de um acordo de cavalheiros mantido desde a fundação do FMI e do Banco Mundial, na cúpula de Bretton Woods em 1945.
No entanto, os países em desenvolvimento encenaram sua intenção de romper esta tradição, que classificaram de “obsoleta”, na sexta-feira passada com um comunicado emitido pelo grupo de países emergentes Brics – formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
“A convenção de que a seleção do diretor-gerente seja feita, na prática, com base na nacionalidade enfraquece a legitimidade do Fundo Monetário Internacional”, indicaram os representantes do Brics.
Essa era a resposta do grupo à articulação da Europa para lançar uma candidatura do continente à direção do Fundo, formalizada nesta quarta-feira, com a indicação da atual ministra das Finanças da França, Christine Lagarde, para suceder Strauss-Kahn.
Já pelo grupo dos emergentes, os países também se apressaram a negociar os nomes de possíveis candidatos, como o governador do Banco do México, Agustín Carstens, e o diretor do Banco Nacional do Cazaquistão, Grigori Marchenko.
Atkinson, no entanto, defendeu o procedimento de seleção do novo diretor-gerente do FMI, aberto no último dia 23 e que termina em 30 de junho. “Detalhamos os requisitos: visão estratégica, conhecimento dos problemas da economia mundial, imparcialidade e objetividade”, explicou.
Ela reiterou, sem dar mais detalhes, o que foi dito pelo Fundo na semana passada: “O processo será aberto, baseado em méritos e transparência”.