Ollanta Humala possui a árdua tarefa de governar um país, o Peru, enquanto é alvo de inimigos íntimos: um irmão preso que o chama de zelador, outro que diz que quem manda no país é sua esposa Nadine, um terceiro que se apresentou como autoridade peruana a negócios na Rússia e um pai que o trata como traidor.
Com uma família assim, o presidente não precisa de nenhuma oposição política, como afirmou recentemente Jorge del Castillo, ex-primeiro-ministro durante o mandato de Alan García.
O mais polêmico dos irmãos é Antauro Humala, condenado a 19 anos de prisão pela morte de seis pessoas em uma tentativa de golpe militar contra o ex-presidente Alejandro Toledo, em 2005.
De acordo com Antauro na época, o desordenado ataque armado, que acabou em tiros contra uma delegacia em uma vila nas montanhas de Andahuaylas, foi conduzido em nome de Ollanta.
O agora presidente teve um papel importante para que seu irmão não fosse morto no conflito, segundo fontes ligadas ao chefe de Estado.
Antauro Humala deu várias entrevistas da prisão e afirmou que restava pouco tempo de pena para cumprir quando seu irmão ganhou as eleições e assumiu a Presidência, em julho de 2011.
Embora receba tratamento especial, com telefone particular, computador, visitas contínuas e até acompanhantes – privilégios que o presidente credita à corrupção penitenciária -, Antauro só rendeu desgosto a seu irmão famoso, a quem chamou de “vigia de palácio”, zelador armado e “mandado”.
Seu pai também critica o trabalho de Ollanta: Isaac Humala, um advogado que criou o “etnocacerismo”, doutrina política que proclama a supremacia da raça inca, afirmou que se seu filho presidente “não pode fazer justiça a todos os peruanos, que pelo menos a faça a seu irmão” e o liberte.
Libertar Antauro é o que ordenaria “o direito natural”, segundo a Teoria do Direito de Isaac – pai de dez filhos, três deles fora do casamento.
O advogado disse recentemente: “Estou orgulhoso de meus sete filhos e todos são ‘presidenciáveis’; em breve será a vez das três mulheres, se os homens fracassarem”.
Ele também disse que educou seus filhos para alcançar o poder “de qualquer forma”, e explicou assim o motivo de todos terem nomes de heróis, seja da mitologia inca, grega ou hebreia.
O presidente Ollanta Humala, muito breve em suas declarações à imprensa, deu no domingo uma entrevista a um programa de televisão para, entre outras coisas, se distanciar da imagem de seu irmão.
“Quero assinalar que discordo frontalmente do que Antauro diz”, afirmou o chefe de Estado, “não compartilho nada do que ele fala, faz ou pensa”.
O presidente ressaltou que também não compartilha “com o que diz nem com o que pensa” Isaac, embora o respeite “como pai”.
Outro filho, Ulises, é advogado de Antauro. Ele tirou importância do fato de seu cliente ter sido filmado enquanto fumava maconha na prisão e afirmou em entrevista que quem manda no país não é Ollanta, mas Nadine Heredia, esposa do presidente.
O que é certo é que Nadide, de 35 anos e mãe de três filhos, conta com 59% de aprovação, quatro pontos a mais que o presidente.
Ollanta Humala, na mesma entrevista em que renegou seu irmão, disse que no Peru “não há co-presidenta”, e que sua esposa, co-fundadora do Partido Nacionalista, é só seu “suporte moral”
O governante peruano descartou que a primeira-dama tenha intenção de se candidatar nas eleições de 2016, interesse manifestado explicitamente por Antauro Humala sob a bandeira do “etnocacerismo” do pai.
O terceiro irmão da família também deu dores de cabeça ao presidente. Quando Ollanta ganhou as eleições presidenciais, Alexis Humala, casado com uma russa, viajou para Moscou liderando uma delegação empresarial para fazer negócios assegurando que falava em nome do governo.
O presidente teve que ir a público e dizer que não sabia nada sobre a viagem, e Alexis foi cassado na direção do partido nacionalista.
No Peru, “Humala” já é sinônimo de um presidente com aceitação, mas “Os Humalas” identificam todo um fenômeno familiar digno de uma série de televisão.