O chefe do Estado-Maior conjunto dos Estados Unidos, Michael Mullen, assegurou hoje em Cabul que a guerra afegã avança de forma “lenta, mas segura”, e defendeu a necessidade de “restaurar a confiança” com o Paquistão para obter frutos na missão militar e desmantelar as redes terroristas na fronteira.
Em entrevista coletiva na capital afegã, onde chegou após visitar Islamabad, Mullen explicou que o objetivo das forças estrangeiras é reverter à situação bélica neste ano com um grande desdobramento nas províncias sulinas de Helmand e Kandahar, os centros nevrálgicos do movimento talibã.
A ofensiva lançada em fevereiro em Helmand, o viveiro do ópio afegão, segue registrando “avanços”, embora o almirante tenha confessado que as autoridades afegãs não implantaram “tão rápido” como o comando militar esperava.
Mullen, que hoje se reuniu com o comandante-em-chefe das forças estrangeiras, o general David Petraeus, acrescentou que a “campanha militar” na vizinha Kandahar, centro espiritual dos talibãs, “continua”, embora tenha lembrado que ainda faltam chegar efetivos ao Afeganistão para completar o contingente de 150 mil soldados.
A repetida data de julho de 2011 mencionada pelo presidente Barack Obama representará o “início da transição”, da cessão de controle militar às forças afegãs, mas o número de soldados estrangeiros que começarão a deixar o país dependerá da situação no terreno, reiterou.
“Ninguém está buscando a porta de saída do Afeganistão ou da região”, declarou o almirante, quem ressaltou que Washington terá tropas desdobradas no país por bastante tempo e além desta data.
Mullen, que amanhã visitará as tropas no sul afegão, afirmou que o objetivo de as forças afegãs assumirem o controle militar no fim de 2014 – compromisso assumido pelo presidente Hamid Karzai na Conferência de Cabul – é possível, embora não seja “fácil”.
Para alcançar conquistas, e particularmente para bater na cúpula das organizações terroristas nas áreas tribais do Paquistão, Mullen apostou na colaboração com o serviço de espionagem paquistanês (ISI).
O militar opinou que Osama bin Laden e seu braço-direito, Ayman al-Zawahiri, estão refugiados no Paquistão, mas lembrou que os EUA não dispõe de informações dos serviços de inteligência com relação a isso há anos.
Além disso, disse ter discutido com o ISI a necessidade de “concentrar” em outros grupos que organizaram violentos atentados terroristas como a rede Haqqani e Lashkar-e-Toiba, que está “movimentando em direção ao oeste”.
Mullen admitiu que a relação dos EUA com o Paquistão – e também com o Afeganistão – foi lastrada pela “falta de confiança” por causa “dos momentos em que os EUA estiveram no país e depois abandonou”, em alusão à guerra entre os soviéticos e os mujahedins apoiados pelo ISI e a CIA nos anos 80.
Reconheceu as “incomuns circunstâncias” do desaparecimento de dois soldados americanos que saíram de um complexo de Cabul na sexta-feira e disse que se está fazendo um grande esforço por encontrá-los.
O movimento talibã reivindicou ontem a captura deles na província oriental de Logar, mas hoje disse que matou um deles e que mantém o outro sob custódia.
O desaparecimento dos soldados foi acompanhado de rumores de que a dupla estava em um veículo civil – algo que faz as autoridades pensarem que não eram militares – e se aventuraram a entrar em um distrito sob controle talibã.
Mais ao nordeste, na província do Nuristão, vários dias de combates mataram 50 insurgentes e três policiais, segundo o Ministério do Interior.
O governador provincial, Jamaluddin Badr, assegurou à agência “AIP” que os talibãs ocuparam ontem à noite a capital do distrito de Bargi Matal, na fronteira com o Paquistão, depois que as forças afegãs se retirassem ao comprovar o poder armado dos fundamentalistas.
Horas depois a Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf) da Otan reagiu a estas informações e assegurou em comunicado que comandos afegãos apoiados por forças especiais americanas mataram um “grande grupo de insurgentes” há dois dias em Nuristão, sem fazer alusão ao dia de ontem.
A Otan assegurou que a localidade de Awlagul, no citado distrito de Bargi Matal, foi “limpa” de insurgentes, mas sem referências à montanhosa capital do distrito, que mudou de mãos várias vezes durante os últimos meses.
Em junho, o número de baixas de soldados estrangeiros atingiu 102, reflexo de um dos momentos mais duros da guerra afegã apesar do “plano de paz” afegão para dialogar com os insurgentes.