ANGELA BOLDRINI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Nos anos 1940, uma música se tornou uma febre entre as tropas britânicas que lutavam contra os nazistas. Usando a melodia de uma marcha militar popular e animada, os soldados cantavam: “Hitler has only got one ball, Göring has two, but very small”.
A letra aludia ao rumor de que o Führer possuía apenas um testículo. Além disso, insinuava que o todo-poderoso Hermann Göring, segundo homem do Partido Nazista, até tinha dois, mas muito pequenos.
A canção, uma das mais famosas peças de humor da Segunda Guerra Mundial, tinha o duplo objetivo de ridicularizar o adversário, impondo dúvidas sobre sua masculinidade e sobre a suposta “superioridade genética” reclamada pelos nazistas e levantar o moral dos soldados.
A música sobre os testículos de Adolf Hitler não é tão diferente dos memes que viralizam no conflito de Estados Unidos e Israel contra o Irã, argumenta Nick Cull, professor de comunicação da Universidade do Sul da Califórnia em Annenberg (USC), especializado na história da propaganda de guerra.
“Não importa contra quem estivessem lutando, fosse Napoleão, o Kaiser ou Hitler, os britânicos sempre faziam musiquinhas sobre o inimigo”, explica Cull. “Os memes cruéis são uma parte integral das nossas guerras. Eles ajudam o público a imaginar que a pessoa com quem estão lutando é ridícula e que pode ser derrotada.”
A diferença, diz o professor, é que além de as redes sociais ampliarem o alcance dessas propagandas, o uso do meme como arma de guerra foi incorporado a estratégias estatais.
“Eu não imagino Winston Churchill indo na rádio dizer eu ouvi uma música muito interessante sobre as bolas de Hitler”, enquanto Trump, por exemplo, tem usado suas contas e as da Casa Branca para publicar imagens e vídeos com inteligência artificial sobre o conflito e outras questões geopolíticas de seu interesse.
A mais recente mostrava o presidente com vestes similares às de Jesus, curando um homem doente ao colocar as mãos em sua cabeça. A imagem foi publicada em meio a uma série de atritos de Trump com o papa Leão 14.
Tine Munk, professora de criminologia da Universidade Nottingham Trent (Reino Unido), estuda a “guerra memética”, que é o uso da dinâmica de redes sociais e da disseminação de memes virtuais para atacar ou se defender em uma guerra.
Ela afirma que a origem da estratégia nos moldes do que se vê no conflito no Oriente Médio tem em Trump um patrono. “Em 2016, na eleição presidencial dos EUA, foi quando vimos Trump e seus apoiadores começarem a usar memes como ferramentas políticas mais explícitas e ofensivas”, afirma.
Por isso chama a atenção a desenvoltura com que os iranianos começaram a jogar contra Trump em seu próprio jogo. Logo após a publicação da imagem do presidente americano como Jesus, contas de embaixadas persas passaram a distribuir suas próprias mensagens.
Em um vídeo publicado na segunda-feira (14) pela embaixada do Irã no Tadjiquistão, o Trump de túnica é atacado pelo verdadeiro Jesus, que dá um soco sanguinolento na boca do presidente americano e o derruba em um fosso de lava presumivelmente, uma entrada do inferno.
A publicação acumula mais de 12 milhões de impressões no X, a rede social preferencial da “guerra memética”, explica Munk. O formato de publicações curtas, organizadas pelo algoritmo e que misturam texto, vídeo e imagem, fortalece a predileção, embora o TikTok também esteja sendo utilizado, diz a pesquisadora.
Enquanto os EUA tendem a apostar em publicações de tom épico, que apelam à ideia de grandeza e masculinidade idealizadas pela base de Trump, o Irã envereda pelo caminho da ridicularização.
Vídeos misturando elementos de cultura pop, como Lego e “Toy Story”, mostram o presidente americano como um brinquedo de Netanyahu. Outros, mais sombrios, colocam o criminoso sexual
Jeffrey Epstein como uma cabeça desencarnada dando conselhos a Trump sobre seus ombros.
“Há três tipos de propaganda: aquela para seu próprio público, que serve para reafirmar a guerra. A para países neutros, que busca fazer com que apoiem sua guerra ou não se juntem ao inimigo. E a direcionada ao seu inimigo, que visa quebrar a vontade de resistência”, explica Cull.
Antigamente, era preciso usar transmissões de rádio ou lançar panfletos pelo ar. “Parte do nosso próprio momento, da nossa própria época, é que nunca foi tão fácil fazer sua mensagem chegar ao inimigo”, diz o professor.
Na guerra memética entre Irã e os EUA Israel tem se mantido razoavelmente distante da batalha virtual, embora apareça nos vídeos iranianos como inimigo ou o verdadeiro vilão do conflito, o professor defende que os dois países estão apostando em públicos diferentes.
“Veja quantos dos memes estão sendo feitos em inglês. Isso sugere que os iranianos não estão tentando ganhar apoio interno, querem trollar Trump para o resto do mundo. Já os EUA, quando criam vídeos em inglês para celebrar a guerra e o jeito americano de fazer guerra, não estão tentando desmoralizar os iranianos, mas apelar a sua própria base.”
É difícil, afirmam os especialistas ouvidos pela Folha, mensurar o quanto a propaganda é efetiva. “Não existe nada pior do que uma propaganda que não é feita para você”, diz Cull. Ou seja, se os memes de Trump são direcionados à base Maga (sigla em inglês para “faça a América grandiosa novamente”), é provável que pareçam esdrúxulos para outros públicos.
Os memes iranianos, por sua vez, tendem a apelar a um público maior. “Acaba se tornando uma briga meio Davi versus Golias, eles são os azarões do conflito, que ninguém esperava que fossem resistir, e estão aí fazendo vídeos engraçados”, diz Munk.
E, enquanto o frágil cessar-fogo militar se mantém, a “guerra memética” não dá sinais de arrefecimento . “Não acho que as pessoas vão sair simpatizando com o regime iraniano, mas só o fato de eles estarem publicando constantemente e mantendo essa presença já contradiz a narrativa de Trump de que foram obliterados”, completa Cull.