A Espanha enfrenta dois dias decisivos para controlar os incêndios nas imediações de Madri, onde dezenas de milhares de pessoas têm a esperança de retornar em breve para suas casas ou para o que restou delas.
O avanço dos incêndios de magnitude histórica desacelerou, anunciaram, nesta segunda-feira (27), as autoridades, que pretendem estabilizar seu perímetro antes de uma nova onda de calor a partir de quarta-feira, que aumentará o risco de incêndios a níveis extremos.
Aos incêndios nos arredores de Madri soma-se outro foco no leste do país, em Castellón, para onde o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, viajou neste segunda-feira.
“Horas difíceis, horas complexas, vamos ter um aumento das temperaturas”, afirmou o dirigente socialista.
Os incêndios avançaram rapidamente pela vegetação seca devido às sucessivas ondas de calor que começaram em maio e à falta de chuva, tanto na região de Madri quanto em suas imediações. O fogo avançou por dezenas de milhares de hectares e obrigou 75.000 pessoas a abandonarem suas casas ou locais veraneio.
Em Cerebros, a cerca de 100 quilômetros de Madri, o céu está coberto de fumaça branca e cheira a queimado. Nos arredores ainda há vegetação em chamas.
David Sánchez, um pintor e decorador de 48 anos, é um dos evacuados que pôde voltar para casa nesta segunda-feira e, ao retornar, encontrou suas plantações queimadas.
“Eu já perdi muitas oliveiras e pistacheiros queimados, sabe? Agora é limpar tudo, voltar a plantar e pronto. É uma merda, para falar a verdade. É que o fogo voltou a se ativar ali embaixo”, afirmou.
– “Não sabemos de nada” –
Em um abrigo improvisado instalado em Las Rozas, subúrbio de Madri, os deslocados se perguntam com o que irão se deparar caso lhes permitam voltar para suas casas.
David Leiva, de 32 anos, porteiro em um condomínio residencial, afirmou que o processo foi “um tanto caótico”.
“Não sabemos em que momento vamos chegar em casa, se vai pegar fogo (…) Não sabemos de nada”, contou.
O incêndio, que começou na província de Ávila mas que se estendeu à região de Madri, é o “maior incêndio florestal da história recente” da Espanha, com quase 50.000 hectares afetados, afirmou o governo no domingo.
A reabertura do trânsito em algumas rodovias até agora interditadas permitiu constatar, nesta segunda-feira, os efeitos das chamas: uma dezena de veículos carbonizados em um parque industrial, um pinheiro que ainda queimava em meio a um bosque ou um filhote de veado morto.
“É desolador. Veados mortos, animais desaparecidos. Lá em cima há animais mortos, tenho tudo gravado”, disse à AFP Karim Benali, um voluntário em uma área próxima ao município de Navaluenga.
“Ninguém fez nada (…) Aqui deixaram que queimasse”, lamentou.
– “Uma emergência climática” –
Durante a noite de domingo (26), a queda das temperaturas, a diminuição do vento e a maior umidade favoreceram o trabalho dos bombeiros.
Os incêndios “reduziram o avanço”, informou a delegação do governo espanhol em Madri, que advertiu, no entanto, que o fogo “segue ativo e sem estar estabilizado”.
Além disso, a janela de oportunidade é curta, com a chegada, a partir de quarta-feira, de uma nova onda de calor que prosseguirá pelo menos até domingo e pode levar as temperaturas a até 40ºC.
O risco de incêndio aumentará “a níveis extremos, dificultando ainda mais os trabalhos de extinção”, alertou a agência meteorológica AEMET.
“Segunda e terça são dias absolutamente centrais para controlar o fogo”, advertiu o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska.
O presidente do governo, por sua vez, atribuiu a situação às mudanças climáticas.
“Não é uma sucessão de episódios isolados, e sim a expressão mais dolorosa de uma emergência climática”, disse. “Não é mais uma exceção, é a regra em si”, completou.
As mudanças climáticas, causadas principalmente pela combustão contínua de petróleo, carvão e gás, agravam a atual seca, concluíram climatologistas do grupo World Weather Attribution em um estudo publicado na semana passada.
AFP