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Eleições na Alemanha podem definir sobrevivência de Merz

A impopularidade de Merz alcançou novo recorde negativo na última semana, com 88% de insatisfeitos e apenas 10% de aprovação

Redação Jornal de Brasília

20/09/2026 9h32

chancellor friedrich merz and the convervative cdu party's main candidate evers attend a campaign event at the cdu headquarters

Foto: JOHN MACDOUGALL / AFP

JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS)

O nome de Friedrich Merz não estará em nenhuma cédula neste domingo (20), na Alemanha, mas é uma resposta sobre seu futuro como primeiro-ministro que emergirá de duas eleições estaduais em que a AfD, partido de extrema direita, espera mais uma vez dobrar suas votações.

Há duas semanas, em Saxônia-Anhalt, a AfD (Alternativa para a Alemanha, em português) alcançou quase 44% dos votos e ficou muito próxima de formar seu primeiro governo. Se consumado, será um marco para o país, que construiu um sistema político e garantias constitucionais para evitar um novo partido nazista após o Holocausto e a derrota na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Desta vez, a despeito do crescimento da legenda, que tem integrantes investigados por discurso de ódio e neonazismo, as pesquisas de opinião sugerem uma tarefa mais difícil. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a social-democrata Manuela Schwesig busca a reeleição após reverter mais de dez pontos percentuais de desvantagem para a sigla populista. Em Berlim, A Esquerda e a CDU (União Democrata-Cristã) de Merz lideram numericamente a corrida.

Descrito dessa forma, a partir de uma eventual vitória do SPD, parceiro de coalizão, no nordeste do país, e uma primeira ou segunda colocação na capital federal, o quadro não parece tão feio para o premiê. A desgraça, porém, aparece nos detalhes.

Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, um dos estados mais pobres da Alemanha, a sigla de Merz corre o risco de não superar a cláusula de barreira de 5%, algo que seria inédito em seus 81 anos de existência. Lideranças locais afirmam sem rodeios que a culpa seria do primeiro-ministro, de trato difícil e insensível a demandas básicas da população.

A impopularidade de Merz alcançou novo recorde negativo na última semana, com 88% de insatisfeitos e apenas 10% de aprovação. Eleito em 2025, o conservador pena para emplacar reformas complexas em um país há anos com a economia estagnada. Defender mudanças na Previdência e cortes em benefícios sociais, “enquanto a AfD anuncia todo tipo de coisa”, como descreve um político da CDU, não ajuda.

A perda de protagonismo no campo da direita parece ser a principal preocupação dos democratas-cristãos, principalmente na base da legenda. Leif-Erik Holm, principal candidato da AfD em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, explora exatamente isso em sua campanha. Os votos que faltam para o partido, costuma dizer, “não estão na extrema direita, mas no centro”.

Holm é considerado um moderado dentro da AfD, da primeira fase da sigla, criada por economistas durante a crise do euro. Em seu estado, no entanto, os quadros mais jovens do partido foram recrutados em fraternidades estudantis radicalizadas, segundo reportagem do jornal Die Zeit.

Tanto que Schwesig, sua principal adversária, descreve-se na campanha como a “mulher contra o azul”. Azul é a cor da sigla de extrema direita.

O enfrentamento direto está produzindo dividendos para a governadora, a ponto de analistas arriscarem um comparativo com a largada bem-sucedida do primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, em seu embate com o Reform UK, do populista Nigel Farage.

No meio da pancadaria regional, parte da conta também sobra para Merz.

Schwesig se posicionou contra o próprio SPD quando a coalizão anunciou o fim da aposentadoria antecipada aos 63 anos, prevista atualmente para quem tem 45 anos de contribuição. Vários políticos da CDU a seguiram, preocupados com o estrago político que o gabinete de Merz promovia na reta final de eleições já bem complicadas.

A situação do partido é bem mais tranquila em Berlim, onde os democratas-cristãos perseguem A Esquerda dentro da margem de erro. Quem alcançar a maior bancada do Parlamento terá amplas condições de formar uma coalizão, a despeito do crescimento da AfD, e indicar o prefeito –que, no caso da cidade-estado, também é governador.

Um tropeço da CDU, no caso, seria uma nova mácula à retórica em geral agressiva e afeita a gafes de Merz. Em 2025, pouco antes de vencer as eleições federais, o então líder da oposição havia decretado o fim da esquerda como campo político na Alemanha.

Sua frase à época (“A esquerda acabou”) será certamente lembrada se Stefan Evers, colega de partido, perder a disputa para Elif Eralp, que se apresenta como “inquilina” antes de qualquer outra qualificação.

Em busca de uma conquista inédita para o partido em Berlim, A Esquerda explorou o custo da vida real na campanha.

Diante da possibilidade de uma tempestade perfeita, Merz cancelou sua ida para a Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, e convocou o comitê executivo da CDU para uma reunião na noite deste domingo.

A tendência é o premiê cobrar apoio incondicional dos correligionários logo após os resultados eleitorais do dia se tornarem conhecidos.

Ainda que a troca de primeiro-ministro seja uma operação complexa no sistema político alemão, nomes de substitutos já são discutidos abertamente na imprensa alemã. Hendrik Wüst, governador da Renânia do Norte-Vestfália, é citado, assim como Markus Söder, seu par na Baviera.

Söder, inclusive, estaria se preparando para receber integrantes do SPD na Oktoberfest, que começou neste fim de semana em Munique, para discutir suas possibilidades.

Um novo premiê teria de ser eleito pela coalizão no Bundestag, o Parlamento, ou governar em minoria. Convocar eleições federais está fora de cogitação, pelo simples fato de que a AfD venceria.

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