O comitê de investigação da ONU sobre o ataque israelense ao comboio humanitário em maio iniciou hoje seus trabalhos reunindo-se com o secretário-geral Ban Ki-moon, e sem esclarecer as dúvidas sobre o conteúdo de sua missão.
O grupo presidido pelo ex-primeiro-ministro da Nova Zelândia Geoffrey Palmer, e com o ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe como vice-presidente, se reuniu durante cerca de meia hora com Ban.
Também participaram da reunião o delegado israelense, Yosef Ciechanover, e o turco, Ozden Sanberk, que representa o país de onde partiram os navios atacados por Israel e de onde eram as nove pessoas mortas.
Nenhum dos integrantes do grupo quis conversar com a imprensa na entrada ou saída da reunião, que aconteceu no escritório do secretário-geral, na sede das Nações Unidas, em Nova York.
Após o encontro com Ban, o comitê fez a portas fechadas sua primeira reunião de trabalho para decidir como iniciar a investigação, segundo a ONU.
Em comunicado, as Nações Unidas assinalaram que Ban lhes agradeceu por assumir esta “grande responsabilidade e pelo comprometimento com o qual encaram esta tarefa”.
Além disso, indicou que o comitê determinará nos próximos dias como abordará seu trabalho. Para isso, Ban pediu a seus integrantes que busquem a “plena cooperação das autoridades nacionais”.
“O comitê não tem como propósito apontar responsabilidades criminais individuais, mas estudar e identificar os fatos, circunstâncias e contexto do incidente, assim como recomendar maneiras de evitar que se repita”, indicou a ONU.
Para isso, o comitê receberá e revisará os resultados das investigações internas realizadas por israelenses e turcos, a quem poderá pedir “explicações e informações que necessitem de autoridades relevantes”.
Ban negou ontem que para conseguir a participação israelense nesta iniciativa tivesse acertado que não aconteceriam interrogatórios de militares do Estado judeu.
As declarações do secretário-geral geraram a reação do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que em comunicado ameaçou não cooperar com a investigação da ONU caso seus soldados fossem interrogados.
A posição do Estado judeu reforçou as vozes críticas na Turquia e em alguns países árabes, que consideram o mandato do comitê fraco demais para esclarecer as possíveis responsabilidades dos militares israelenses.
O porta-voz das Nações Unidas, Martin Nesirky, declinou hoje precisar se existia ou não um acordo prévio com Israel, e reiterou que está nas mãos dos integrantes do comitê decidir como realizarão a investigação.
“O sucesso (das investigações) está na maneira como cooperamos com as autoridades nacionais, e que as autoridades nacionais cooperem com o comitê”, insistiu.
Nesirky ressaltou que, para começar os trabalhos, o grupo não tem de esperar até que israelenses e turcos completem suas investigações, porque “já existe material suficiente a analisar”.
Além disso, lembrou que os primeiros resultados de suas investigações serão levados ao Conselho de Segurança da ONU e ao secretário-geral em meados de setembro.
No dia 31 de maio, o Exército israelense atacou em águas internacionais seis navios humanitários que iam a Gaza e matou nove ativistas turcos – um deles que também tinha nacionalidade americana -, além de ferir dezenas deles na única embarcação onde encontrou resistência.
A sangrenta abordagem culminou no maior massacre de ativistas internacionais cometido por Israel, que o justificou com o argumento de que alguns deles tinham ligações com o terrorismo.
Além de sua missão humanitária, o comboio tinha a intenção de denunciar o bloqueio israelense a Gaza dos últimos três anos, desde que o movimento islamita Hamas assumiu o poder do território.
O ataque ao comboio humanitário, que piorou ainda mais as relações entre Israel e Turquia, gerou uma forte rejeição internacional e forçou o Estado judeu a suavizar o bloqueio à Faixa de Gaza.
A ONU assinalou que espera que um dos resultados de sua investigação seja a aproximação entre os dois países e o avanço do processo de paz no Oriente Médio em geral.