O mundo editorial francês foi abalado nesta quinta-feira (16) pelo anúncio de 170 escritores de que não voltarão a publicar na tradicional editora Grasset, em protesto contra a saída de seu diretor, Olivier Nora, decisão que atribuem a seu proprietário, o bilionário conservador Vincent Bolloré.
A iniciativa, incomum no meio literário francês, reúne nomes de peso como Virginie Despentes, Frédéric Beigbeder, Sorj Chalandon e Bernard-Henri Lévy. Ocorreu após o anúncio, no início da semana, da saída de Nora da direção da Grasset, cargo que ocupava havia 26 anos. A editora pertence ao grupo Hachette, controlado por Bolloré desde 2023.
Esse empresário de 74 anos, próximo de figuras da extrema direita, se impôs há duas décadas no setor de comunicação da França, onde televisões, rádios e jornais passaram para seu controle.
Após o anúncio da demissão de Nora, de 66 anos e muito respeitado no meio, 170 escritores assinaram uma carta aberta denunciando “um atentado inaceitável contra a independência editorial” da Grasset.
Os motivos da saída de Nora não foram oficialmente divulgados, mas o coletivo afirma que se trata de uma “demissão”.
– “A faísca” –
“Era impossível não fazer nada. A partida de Olivier Nora foi a faísca”, contou à AFP a romancista Colombe Schneck, uma das signatárias da carta em que garantem que não publicarão mais pela Grasset.
Segundo ela, todos tinham consciência do que Bolloré tinha feito com os seus outros meios, incluindo a editora Fayard que, assim como a Grasset, faz parte do grupo Hachette.
A Fayard, outrora reconhecida pelos seus títulos de História, publica agora sobretudo autores de direita ou de extrema direita.
A saída de Nora marca uma nova etapa na recomposição das editoras controladas pela Hachette Livre, a número um da edição francesa e terceiro maior grupo editorial mundial, impulsionada nos últimos anos por Bolloré.
“Vincent Bolloré é Átila, chega e destrói ao seu bel-prazer”, declarou outro dos autores signatários, o jornalista Claude Askolovitch, à rádio France Inter.
Procurado pela AFP, a Hachette não comentou de imediato a carta. A empresa informou nesta semana que Jean-Christophe Thiery, diretor-geral do Louis Hachette Group e homem de confiança de Bolloré, assumirá a direção da Grasset.
– “Uma determinada orientação política” –
“Uma indignação coletiva desse tipo, muito pouco comum entre escritores, mostra claramente o impacto produzido pelo desprezo de um acionista que substitui um editor respeitado por um gestor com uma determinada orientação política”, comenta Gaspard Koenig, antigo autor da Grasset.
No texto, os escritores prestam homenagem a Nora, apresentado como a figura que mantinha unida uma casa editorial marcada pela convivência de autores com opiniões muito diferentes.
“As edições Grasset eram nossa casa, especial, porque nelas conviviam pacificamente autoras e autores que não concordavam em muita coisa. Olivier Nora foi seu baluarte e seu cimento graças à sua elegância moral, sua disponibilidade e seu compromisso”, diz a carta.
Os autores que assinam o texto estudam agora medidas para recuperar os direitos de seus livros publicados pela editora. Movimento semelhante também é cogitado por dezenas de escritores da Fayard.
AFP