A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, deve terminar sem acordo sobre a criação de um regime global para enfrentar as secas. A oposição, liderada principalmente por Estados Unidos e União Europeia, é compartilhada por países como Argentina, Chile e Paraguai, e tende a levar o debate para a COP18, prevista para 2028, provavelmente no Egito.
Até o momento, o encaminhamento acertado é apenas uma decisão procedimental ao fim da conferência, mantendo o tema na agenda para novas discussões. O Brasil apoia a criação do regime, mas avalia que, sem consenso nesta rodada, o mais adequado é preservar a discussão para o futuro. O impasse também exigiu mediação ao longo da semana, sobretudo de Brasil e Arábia Saudita, em meio à pressão de países africanos pela criação efetiva do mecanismo e à resistência dos Estados Unidos em manter o tema nos documentos finais.
Representantes de países africanos defendem há pelo menos três conferências a criação de um mecanismo multilateral para enfrentar a seca de forma coordenada, com apoio financeiro a países mais vulneráveis. Já os países mais ricos resistem a compromissos obrigatórios e preferem adesão voluntária. A União Europeia, por sua vez, evita se comprometer com gastos externos em um momento em que também enfrenta episódios de seca em seu próprio território.
A secretária executiva adjunta da UNCCD, Andrea Meza Murillo, afirma que ainda há expectativa de acordo, embora o cenário seja difícil. Ela disse que a entidade trabalha por uma solução, mas reconheceu que o novo contexto geopolítico torna mais complicado alcançar resultados negociados ambiciosos. Meza também afirmou confiar na pressão social para manter governos engajados no tema.
Os dados da UNCCD indicam que a frequência, a intensidade e a extensão das secas aumentaram quase 30% desde 2000. Para o coordenador do grupo de trabalho sobre seca da convenção, Daniel Tsegai, o fenômeno deixou de ser uma crise pontual e passou a exigir políticas permanentes de prevenção e adaptação. Ele destaca que os impactos vão além da agricultura e da falta temporária de chuva, afetando hidrovias, transporte, saúde e comércio global.
Mesmo sem o acordo global, a COP17 também foi palco de iniciativas paralelas de financiamento. A Aliança de Riad para Resiliência Global à Seca desenvolve um fundo comum para apoiar 70 países em desenvolvimento, com promessa de US$ 150 milhões da Arábia Saudita e aportes de US$ 2 bilhões do Banco Islâmico de Desenvolvimento e do Fundo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo.
Outro anúncio foi a criação do Fundo de Investimento para Resiliência à Seca (Drif), apresentado como a primeira plataforma global de financiamento catalítico para o tema. Criado pela UNCCD e pelo governo de Luxemburgo, com apoio da Aliança Internacional para Resiliência à Seca, o fundo recebeu aporte inicial de US$ 2 milhões e tem meta de mobilizar até US$ 400 milhões em capital público e privado.
Também foi apresentada a Fase 2 do Observatório Internacional de Resiliência à Seca, plataforma desenvolvida pela UNCCD, pelo Centro de Ecossistemas e Arquitetura de Yale e pela Aliança Internacional de Resiliência à Seca. A ferramenta usa o Índice de Resiliência à Seca, inclui recursos com inteligência artificial e reúne estudos de caso de países em cinco continentes, com a proposta de ajudar governos a identificar vulnerabilidades e orientar políticas e investimentos mais eficazes.