A França e a Agência de Energia Nuclear (AEN), da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), reuniram nesta terça-feira em Paris 33 países em um seminário ministerial sobre harmonização da segurança atômica após a catástrofe de Fukushima.
A ministra da Ecologia francesa, Nathalie Kosciusko-Morizet, que exercia a Presidência da reunião, reconheceu em entrevista coletiva que não houve nenhum debate sobre a questão do abandono da energia nuclear, reativado após o anúncio alemão que fechará todas as suas plantas até 2022.
Kosciusko-Morizet, representante do país mais nuclearizado da Europa – a França tem 58 reatores que geram 75% de sua eletricidade – se esforçou para deixar de lado a questão e insistiu que além das diferenças, “há um acordo geral para dizer que a segurança nuclear está em primeiro lugar”.
Acrescentou que a política nuclear de cada país “não interfere” no desejo de “todos em reforçar” os dispositivos, porque “está claro que é preciso tirar lições do episódio” de Fukushima, ou seja, “padronizar as normas de segurança”.
Com relação ao assunto, o diretor da AEN, Luis Echávarri, adiantou que nesta quarta-feira os responsáveis das agências de segurança nuclear dos países presentes apresentarão as conclusões do encontro em que “vão afinar medidas” para harmonizar os testes de resistência às quais são submetidos os reatores nucleares.
Alguns “testes de estresse” que vão avaliar a resistência das instalações em serviço para enfrentar fenômenos naturais – não vão contemplar hipóteses como as dos atentados terroristas -, como o tsunami que inundou o complexo de Fukushima, e que até agora não foram avaliados por serem considerados inverossímeis do ponto de vista de sua probabilidade.
Echávarri explicou que “as autoridades nacionais são as responsáveis pelos testes de estresse”, já que a comunidade internacional precisa de competências e de mecanismos jurídicos para garantir o cumprimento das regras estabelecidas pelas convenções internacionais.
Por isso, e porque os países não estão dispostos a expor suas possíveis vulnerabilidades em suas usinas atômicas frente aos atentados, considerou justificado que os testes de resistência não sejam feitos sob supervisão de analistas internacionais.
A conselheira federal responsável pelo Meio Ambiente e Energia suíça, Doris Leuthard, evidenciou o problema ao lembrar que “um acidente (nuclear) não acaba nas suas fronteiras” e reivindicar padrões internacionais para os testes de estresse é muito importante, deveria ser encarado com de caráter obrigatório, para que os países vizinhos possam saber em detalhes os seus resultados.
Leuthard, no entanto, se manteve em um tom diplomático para não incomodar a anfitriã francesa, quando foi perguntada sobre sua posição face aos testes que vão realizar nesse país, que além de contar com um grande parque de centrais fez uma grande aposta industrial para vender tecnologia nuclear, principalmente aos países emergentes.
“Confiamos nas autoridades reguladoras” francesas e que enviarão todas as informações, assinalou a conselheira suíça.
Algo parecido declarou a representante alemã, a secretária de Estado do departamento do Meio Ambiente, Ursula Heinen-Esser, que pediu transparência após ter elogiado “a iniciativa francesa”.
Echávarri insistiu várias vezes em evitar que a catástrofe japonesa coloque em questão o desenho das usinas atômicas e afirmou que “o acidente de Fukushima não foi gerado no interior da central” e a radioatividade que emitiu não causou mortes.
Saiu em defesa das autoridades japonesas que “fizeram um esforço em circunstâncias muito dramáticas” para oferecer informação à comunidade internacional sobre o alcance da tragédia.