A ameaça do crime organizado e a necessidade de uma maior cooperação econômica continental centraram nesta quarta-feira os debates da Conferência das Américas, liderados pela secretária de Estado americana, Hillary Clinton.
Anfitriã da 41ª edição do fórum, Hillary destacou a “surpreendente mudança observada nos últimos anos” na América Latina e coincidiu com aqueles que consideram que esta pode ser “a década da região”.
No entanto, ela alertou sobre “os inaceitáveis níveis de criminalidade” registrados nos últimos anos que podem ameaçar “a oportunidade” que se apresenta à América Latina na presente década.
Hillary assinalou, além disso, o giro dos Estados Unidos para a busca de “alianças flexíveis e multilaterais” e ressaltou o interesse dos EUA em uma região que qualificou de “vital” para sua recuperação econômica.
“Estamos reconstruindo nossa economia e não temos melhores parceiros que nossos vizinhos”, disse a chefe da diplomacia americana, ao reiterar seu compromisso de que o Congresso americano levaria adiante neste ano os acordos de livre-comércio com o Panamá e a Colômbia.
O ex-candidato à Vice-Presidência americano John McCain e senador pelo Arizona insistiu nos problemas provocados pelos cartéis do narcotráfico, sobretudo no México, onde, em sua opinião, eles representam um “desafio existencial” para o Governo de Felipe Calderón.
“Melhoramos a segurança, mas o nível de violência no México escalou a níveis que nenhum de nós poderia imaginar”, assinalou McCain, que disse representar o estado por onde mais entra droga nos Estados Unidos.
No entanto, o presidente mexicano, Felipe Calderón, que encerrou o fórum, indicou que os Estados Unidos “precisam de uma política de congruência” no que se refere à luta contra o narcotráfico.
“É muito injusto que os camponeses mexicanos sejam presos por produzirem um quarto de hectare de maconha e aqui se produza em escala industrial”, declarou Calderón. “Se não houver uma redução da demanda das drogas, é impossível reduzir a oferta”, acrescentou.
Ele ressaltou ainda que o mercado de drogas é internacional e, por isso, pediu colaboração global no combate. “É irrelevante o que pode fazer um país como o México se este tipo de medida não for tomada globalmente”, afirmou Calderón, que pediu que o tráfico de armas ao México seja detido nos Estados Unidos.
Nos últimos quatro anos, disse o líder mexicano, seu Governo tinha confiscado mais de 100 mil armas dos criminosos e “84% dessas armas são de assalto, são armas que foram vendidas nos Estados Unidos”.
“É urgente que os Estados Unidos tomem medidas para deter a venda de armas de assalto aos criminosos no México. Se vamos prevalecer no esforço, isso tem de se estabelecer como condição muito importante”, assinalou Calderón.
Já o presidente de El Salvador, Mauricio Funes, reconheceu que “a região centro-americana constitui o centro de operações dos cartéis do narcotráfico” que se “aproveitaram do terreno fértil que supõe a pobreza”.
Este tráfico de substâncias ilegais, lembrou, “movimenta mais dinheiro que o orçamento de nossos países, e é quase cinco vezes o Produto Interno Bruto (PIB) de El Salvador”.
Por isso, Funes fez um apelo à integração e coordenação das políticas contra o narcotráfico, inclusive entre México e Estados Unidos, já que, segundo ele, “não haverá sucesso a menos que se trabalhe conjuntamente”.
Funes destacou também a recente viagem do presidente Barack Obama, na qual visitou Brasil, Chile e El Salvador, como um marco nas relações regionais e enfatizou “a necessidade de um diálogo maduro e igual entre os países vizinhos”.
O presidente salvadorenho, que chegou ao poder dois anos atrás, destacou as mudanças “inexoráveis e progressivas” que a América Latina está vivendo.
“A América Latina teve de crescer para que o irmão mais velho do norte (EUA) a levasse em consideração”, afirmou Funes.