Michel se reuniu com o presidente queniano, Mwai Kibaki, com o vice-presidente Musyoka Kalonzo e com os principais ministros. Ele também conversou com Raila Odinga, líder do Movimento Democrático Laranja (ODM), principal partido de oposição do Quênia.
“Kibaki me prometeu abrir uma investigação sobre os atos violentos cometidos por suas forças de segurança, mas também me explicou que a presença e atuação das forças policiais são vitais para recuperar a calma no país”, disse Michel.
O comissário considera que as futuras conversas entre Governo e oposição têm que ser bem-sucedidas e que devem servir para “melhorar e consolidar as instituições de um país já democrático, mas com fissuras constitucionais”.
Ele acredita que a reunião entre as duas partes deve acontecer na próxima semana.
Michel disse ser perigoso convocar mais ações pacíficas nas ruas.
“Não estamos em um momento adequado”, advertiu ele, acrescentando que “a dureza dos conflitos entre seguidores de Odinga e as forças de segurança, e a violência étnica não permitem que haja mais manifestações”.
Enquanto isso, Odinga convocou hoje novas manifestações para a próxima semana, após três dias de protestos políticos que deixaram dezenas de civis mortos, vítimas da Polícia na maioria dos casos.
Odinga fez a convocação menos de 24 horas depois de anunciar que seu movimento renunciava às manifestações para se concentrar em “medidas econômicas contra o Governo” mediante o boicote às empresas próximas ao presidente queniano Mwai Kibaki.
O ODM não reconhece os resultados das eleições gerais do dia 27 de dezembro, nas quais Kibaki venceu, e afirma que foram “fraudulentos”. A comunidade internacional também questionou os resultados do pleito.
O clima de tensão toma conta do país, após as manifestações e conflitos entre seguidores da oposição e as forças de segurança. Os confrontos começaram na quarta-feira e deixaram pelo menos 30 pessoas mortas, a maioria no bairro pobre de Kibera, em Nairóbi.
A violência com a qual a Polícia reprimiu os partidários do ODM gerou indignação de todos os setores da sociedade civil e mobilizou boa parte da comunidade internacional.
Por meio de suas embaixadas em Nairóbi, nove países europeus exigiram o fim das “execuções de civis” pela Polícia. A Anistia Internacional expressou sua preocupação com o que considerou um “uso excessivo da força”.
A organização Médicos Sem Fronteiras foi mais dura em seus comentários e qualificou de “massacre” as mortes registradas no subúrbio de Kibera.
No entanto, o porta-voz da Polícia nacional, Eric Kiraithe, se limitou a responder que “os soldados só cumpriram suas obrigações”.
Calcula-se que desde o fim de dezembro mais de 650 pessoas morreram, enquanto outras 250 mil foram obrigadas a se deslocar de seus lugares de origem.
Enquanto isso, os jornalistas alemães Gerd Uwe e Andrej Hermlin, e a holandesa Fleur van Dissel – detidos ontem por “atividades relacionadas com o terrorismo”, de acordo com a Polícia -, foram libertados hoje sem que nenhuma acusação fosse apresentada contra eles.
Os três permaneceram em dependências policiais de Nairóbi, confirmou Kiraithe, que insistiu que os jornalistas estavam com fotos que “comprometiam a segurança de instalações militares quenianas”.
Uwe e Hermlin foram abordados pela Polícia no aeroporto internacional de Nairóbi momentos antes de deixarem o Quênia, enquanto Van Dissel foi detida no quarto de um hotel da capital.
O ODM não comentou as detenções, apesar de os três manterem contatos com o partido. Há três anos, Fleur Van Dissel prepara um documentário sobre Odinga. Já Gerd Uwe é amigo pessoal e conselheiro do líder do Movimento Laranja.
Imediatamente após a detenção dos três jornalistas, a Associação de Correspondentes Estrangeiros (FCA, na sigla em inglês) no Quênia emitiu um comunicado para pedir a libertação e exigir o fim das intimidações e ameaças contra os meios de comunicação.
As emissoras de rádio e televisão privadas do país continuam sofrendo o embargo decretado pelo Governo que lhes impedem de realizar coberturas ao vivo dos eventos políticos e da crise iniciada depois que a oposição se negou a aceitar o resultado das eleições.
Enquanto o ODM prepara sua nova estratégia de luta contra o Governo, espera-se a chegada do ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan, prevista para a próxima terça-feira, embora ainda sem confirmação.
Kofi Annan deve reiniciar uma mediação entre o Governo e o ODM, que fracassou em uma primeira tentativa realizada pelo presidente de Gana e atual titular da União Africana, John Kufuor.
Em Nairóbi e em outras grandes cidades do Quênia, o comércio reiniciou suas atividades hoje e a presença policial quase não foi notada.
Por enquanto, não foram registrados problemas na distribuição de combustíveis e alimentos, nem longas filas diante dos supermercados, como aconteceu nos primeiros dias de 2008.