Fernando Canzian
Folhapress
Com o endividamento público em rápida elevação e decisões erráticas do presidente Donald Trump, os Estados Unidos têm sofrido uma fuga de investimentos internacionais de títulos do Tesouro do país. Desde 2025, quando o republicano assumiu, papéis públicos da zona do euro e do Japão vêm ganhando terreno, assim como os de outros emergentes.
Mantida a nova tendência, os americanos deverão ser obrigados a pagar juros maiores para atrair investidores e rolar sua dívida pública. Na comparação com países europeus, Japão e a média dos emergentes, os EUA bancam hoje a maior conta de juros como proporção do PIB (Produto Interno Bruto).
De cerca de 3,5% do PIB atualmente, essa fatura de juros deve encostar em 4,5% até o final da década. Isso é cerca da metade do que a zona do euro terá em encargos para rolar suas dívidas; e um terço do que custará aos japoneses.
Segundo relatório sobre o endividamento global do Institute of International Finance (IIF, que reúne mais de 400 instituições financeiras no mundo), o afastamento de investidores do mercado norte-americano não se resume a títulos do Tesouro. Ele afeta também emissões de papéis pivados, que os colocam no mercado para se financiar.
Enquanto as compras de títulos corporativos americanos se mantêm estáveis, empresas de outros países, principalmente europeias, têm sido beneficiadas. Isso faz com que elas paguem menos juros proporcionalmente às americanas.
A tendência de migração de investidores dos títulos do Tesouro dos EUA para papéis de outros países reflete o alto endividamento público norte-americano. Em apenas um ano, ele subiu do equivalente a 119,6% do PIB para 124,1%. Em três anos, o salto foi de quase dez pontos percentuais.
Nesse patamar, a dívida pública norte-americana supera a média global (94,8%), a dos países ricos (109,3%) e de seu principal rival geopolítico, a China (98,1%), segundo dados do IIF até o primeiro trimestre deste ano.
“Não vemos risco no curto prazo [para o financiamento dos EUA] com investidores se desvinculnando dos T-Bonds [títulos do Tesouro]. Mas a tendência de longo prazo por conta do alto endividamento é insustentável”, afirmou Emre Tiftik, diretor de Mercados Globais do IIF, em entrevista de Washington.
Para Oksana Aronov, diretora-geral de Estratégias de Mercado do JP Morgan, há três elementos presentes que pressionarão o endividamento dos EUA: elevados déficits fiscais (pode chegar a 7% do PIB neste ano); que, por consequência, exigem pesadas ofertas de títulos pelo Tesouro; e pressões inflacionárias (que demandam mais juros pelos investidores e engordam a dívida).
“Não há nada trabalhando para conter a alta da dívida e dos juros de papéis com vencimento em dez anos. Não veremos mais o juro zero para papéis norte-americanos”, disse Aronov, de Nova York.
Ludovic Subran, diretor global de investimentos da Allianz Seguros, que compra papéis públicos para ressarcir sinistros, afirma que a ordem é “fragmentar investimentos”, antes concentrados no mercado norte-americano. “Estamos muito preocupados com a dívida e os déficits nos EUA”, disse.
O aumento do endividamento americano tem reflexos no Brasil. Pois investidores geralmente cobram do Tesouro Nacional taxas extras de juros (prêmio de risco) acima do patamar internacional, sobretudo dos títulos dos EUA, por conta do elevado endividamento público brasileiro, de 80% do PIB. Em quatro anos sob Lula 3, a dívida pública deve saltar dez pontos percentuais.
A alta do endividamento público em todo o mundo ocorre, principalmente, por mais gastos voltados à defesa, pelo envelhecimento da população, que requer mais despesas com saúde, e investimentos na área de energia.
Na defesa, segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), metade dos países do globo aumentou orçamentos militares nos últimos cinco anos, revertendo décadas de declínio pós-Guerra Fria. Em 2024, quase 40% das nações alocavam mais de 2% do seu PIB para a área, ante 27% em 2018.
Esses gastos ganharam tração com o novo compromisso da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) de elevar as despesas na área para 5% do PIB até 2035, mais que o dobro da meta anterior de 2%.