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Colômbia vai às urnas fraturada entre aliado de Petro e ultradireitista

“Tenho a impressão de que se trata mais de mensagens de ódio do que de debates lógicos”, afirma o arquiteto Diego Jaramillo, 27, de uma praça na zona central de Bogotá, na véspera da votação

Redação Jornal de Brasília

21/06/2026 9h06

Foto: Oliver Contreras / AFP

Foto: Oliver Contreras / AFP

DANIELA ARCANJO
BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) – Nem um mês separou o primeiro turno das eleições da Colômbia, no dia 31 de maio, do segundo, neste domingo (21). Mas foi tempo suficiente para deixar a população exausta.

“Tenho a impressão de que se trata mais de mensagens de ódio do que de debates lógicos”, afirma o arquiteto Diego Jaramillo, 27, de uma praça na zona central de Bogotá, na véspera da votação. “Isso afeta a convivência dentro do país. Em vez de debatermos, acabamos discutindo por um lado ou pelo outro. E quem não pensa da mesma forma é visto como inimigo.”

A fadiga é reflexo da fratura revelada na votação do final de maio. Contrariando quase todas as pesquisas de intenção de voto, o esquerdista Iván Cepeda, 63, aliado do presidente Gustavo Petro, ficou quase três pontos percentuais atrás de Abelardo de la Espriella, 47, que chegou a 43,7% dos votos válidos.

Levantamentos feitos desde então mostram que a tendência se mantém. Ao longo dessas três semanas, o outsider de ultradireita rondou os 50% dos votos, cerca de sete pontos percentuais acima do senador, de acordo com uma pesquisa da empresa brasileira Atlas Intel.

O último levantamento, divulgado no dia 13 de junho, mostrava Espriella com 50,9% dos votos, Cepeda com 43,1% e nulos, brancos e indecisos com 5,9%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

O clima lembra o das eleições de outros países da região nos últimos anos -praticamente metade da população apoiando um candidato e horrorizada por seus conterrâneos considerarem a opção contrária. Mas é inédito para os colombianos, que viram uma geração de dirigentes de esquerda ser praticamente dizimada pelo conflito armado de seis décadas no país antes de elegerem seu primeiro presidente progressista em 2022.

“Nas eleições deste ano sinto o desgaste de uma sociedade onde o adversário, seja de esquerda ou de direita, acaba se tornando quase um alvo militar, por assim dizer, não um alvo político”, diz Jaramillo, que se considera de centro e, no segundo turno, vai votar em Cepeda. O sentimento é alimentado pelos presidenciáveis, em especial por Espriella.

“Vamos celebrar a vitória dos que nunca viveram às custas do Estado, dos que nunca fizemos politicagem, contra os de sempre”, afirmou o ultradireitista após vencer no primeiro turno, indicando que seguiria apostando na retórica que acabava de consagrá-lo.

A fórmula é conhecida: igualar toda a classe política, em muitos casos já arranhada por décadas de promessas não cumpridas e escândalos de corrupção, e se colocar como a alternativa. Javier Milei atacou a “casta” da Argentina; Nayib Bukele, “os mesmos de sempre” de El Salvador; Jair Bolsonaro, “a velha política” do Brasil; Donald Trump, “o pântano” dos Estados Unidos.

Assim como suas inspirações, porém, o candidato colombiano também tem seu teto de vidro. Como advogado, defendeu muitos dos que agora diz querer combater, como paramilitares, políticos e até mesmo o empresário Alex Saab, ex-ministro da Indústria e da Produção Nacional da Venezuela e suposto laranja do ditador venezuelano Nicolás Maduro.

Além disso, conta com uma mão com alguns dos “de sempre”. O mais expressivo talvez seja Fuad Char, patriarca de uma das família mais influentes na política e na economia da Colômbia, principalmente na região de Barranquilla, onde Espriella vota.

“Sua campanha replicou as de Trump, Bolsonaro, Milei e Bukele. Ele se apresenta como um candidato linha-dura que não está ligado aos partidos políticos tradicionais. É um outsider, um jogador independente”, diz Angelica Bernal-Olarte, professora da Escola Superior de Administração Pública da Colômbia.

Cepeda, senador desde 2014 após quatro anos na Câmara de Representantes, é o oposto do adversário. A cena que descreve a sua personalidade política se deu durante a tragédia pessoal de sua vida. Foi em 9 de agosto de 1994, quando seu pai, conhecido como “o último dos comunistas da Colômbia”, foi assassinado um mês após assumir o cargo de senador.

“Acabo de ver essa coisa terrível”, afirma em uma entrevista Cepeda, então com 31 anos, após chegar à cena do crime. “Eu peço ao país, eu peço ao presidente [Ernesto] Samper, aos que têm algo a ver com a justiça na Colômbia, que façam algo contra essa ofensiva contra dirigentes de esquerda. Que esse crime não fique impune, como o de tantos homens justos e valentes que lutaram neste país”, diz, com uma serenidade notável.

A partir de então, o político, formado em filosofia pela Universidade de Sófia, na Bulgária, fez da busca por justiça pelas vítimas do conflito armado a sua causa. Ele é conhecido pela calma, mesmo em momentos de confrontação -justamente o que parece ter sido seu calcanhar de aquiles neste pleito dominado pelas emoções que seu adversário impôs no debate público.

Cepeda costuma ler seus discursos em comícios, por exemplo, enquanto Espriella, atrás de um vidro blindado, chama seus concorrentes de criminosos e narcoterroristas e termina prestando continência, gesto que se tornou um dos símbolos da sua campanha.

Quando o senador fez declarações mais contundentes ao longo da campanha, foi para afirmar, logo após o primeiro turno, que teria havido uma fraude na votação, sem apresentar provas. No dia seguinte, recuou da acusação e se voltou para o uso da camisa da seleção colombiana pela campanha de Espriella, cobrando inclusive a federação de futebol do país.

As ações revelam o terremoto que a vitória de Espriella causou na campanha da chapa de esquerda. Passado o susto, Cepeda passou a fazer alianças e recuar de algumas propostas iniciais, como a de fazer uma Assembleia Constituinte.

“O projeto político de extrema direita de Espriella constitui uma ameaça. É uma proposta retrógrada e autoritária”, afirmou em uma mensagem no início de junho. “Este é o momento da unidade e do consenso.”

O político, no entanto, não teve tanto sucesso na tentativa de angariar apoios –grande parte dos candidatos à Presidência que ficaram no primeiro turno se alinharam a Espriella, incluindo Paloma Valencia, a representante da direita tradicional que ficou em terceiro lugar.

O ultradireitista, por outro lado, não se moveu. Estão intactas as suas propostas de construir megapresídios, eliminar instituições criadas pelo Acordo de Paz de 2016 com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e abrir o país para a exploração de combustíveis fósseis por meio do controverso método de fraturamento hidráulico.

“Ele se sente um vencedor por ter ganhado o primeiro turno, e não creio que tenha feito qualquer esforço para angariar apoio para a sua campanha”, diz Angelica. “Neste domingo, vamos saber qual foi a estratégia mais exitosa.”

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