MICHELE OLIVEIRA
MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS)
A revelação de que o papa Leão 14 passou por uma cirurgia para a remoção de um câncer no pulmão coloca seu pontificado de menos de um ano e meio em uma fase de incerteza.
Diante do diagnóstico, confirmado publicamente na terça-feira (13), não há indicações de que ele vá buscar acelerar processos para imprimir sua marca na história da Igreja Católica ou diminuir o ritmo para se preservar e se concentrar em eventuais tratamentos e exames.
A decisão que envolve a viagem para a América do Sul, entre 6 e 17 de novembro, será uma amostra.
Ainda não se sabe se Leão 14 vai cancelar a visita, importante para os católicos da região, que desde 2018 não recebem um papa, e para ele próprio, que viveu no Peru por cerca de 20 anos. Ele pode adiar ou remodelar a programação para diminuir riscos; e pode encarar o périplo, a exemplo de Francisco, que aos 87 anos passou 11 dias por Ásia e Oceania.
Por enquanto, a viagem segue formalmente confirmada na agenda do papa, que falou sobre a intenção de ir quando já sabia da cirurgia e da suspeita de tumor maligno. A previsão para a internação do pós-operatório, diz o Vaticano, continua sendo de sete dias, até a próxima terça-feira (20).
“Qualquer desafio de saúde para um papado significa que há uma nova fase, porque há uma nova dimensão, uma nova questão. Como as viagens do próximo ano, que devem ser reavaliadas”, diz Christopher White, autor do livro “Papa Leão 14: dentro do conclave e o alvorecer de um novo papado” (tradução livre, sem edição no Brasil).
A fase de incerteza chega após meses de uma estabilidade conquistada como autoridade moral global, em temas de paz, riscos da inteligência artificial e enfrentamento de poderosos como Donald Trump.
Dentro da Igreja, Leão tem feito movimentos para dissipar polarizações, já publicou seus primeiros documentos importantes, mas ainda não anunciou novos cardeais.
Eleito em maio de 2025, quando tinha 69 anos, o americano Robert Prevost é considerado relativamente jovem para um papa. Seu estilo ativo, de quem pratica atividade física, foi um contraste com Francisco, que acumulou duas operações nos anos finais, passou a circular em cadeira de rodas e a lidar com crises respiratórias.
A saúde de Prevost não foi um fator dominante para a escolha dos cardeais que o elegeram, mas teve peso, diz White. “Os cardeais queriam uma figura estável que pudesse implementar as reformas de Francisco. O consenso era de que eles precisavam de alguém saudável e forte para isso, admitindo que era algo que fosse levar tempo. Prevost se encaixava no perfil”, afirma o atual diretor e pesquisador na Universidade de Georgetown, nos EUA.
O anúncio da cirurgia e do diagnóstico de câncer gerou apreensão tanto em fiéis quanto em cardeais e integrantes da Cúria. Para Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, foi “um raio em céu sereno”.
“Ninguém esperava por isso, mas são as surpresas de Deus”, disse o cardeal.
A transparência com que Leão 14 vem tratando do tema, que subiu um nível desde Francisco ao comunicar ele mesmo e em primeira mão sua internação, ajuda a abafar especulações e temores infundados. E também contribui para afastar o clima de conclave que costuma se instalar quando um papa adoece.
“Quando Francisco entrou no hospital [em 2025], havia uma percepção real entre os cardeais de que eles teriam de começar a pensar sobre o que viria a seguir. De forma alguma isso é comparável com agora”, diz White. “Nós vimos o declínio de Francisco ao longo dos anos. Com Leão, a questão parece ser bem específica, e o prognóstico é bom.”
Para o pesquisador, o estilo de Prevost até aqui sugere que ele não deverá acelerar o andamento de seu papado nos próximos meses, com anúncios e decisões disruptivas. Seu estilo prudente deve prevalecer, diz o especialista, que entrevistou para o livro pessoas que conheceram o papa como estudante, missionário e membro da Ordem de Santo Agostinho.
“A marca de sua liderança é ele ser uma presença estabilizadora. Acho que ele será cuidadoso em passar por isso sem parecer que está tentando acelerar as coisas.”
Sucessor de dois papas que lidaram de formas diferentes com suas fragilidades e com o posto que ocupavam, Leão tem perfil tanto de quem ficaria no papado até o fim, como fez Francisco, quanto de quem apresentaria a renúncia, a exemplo de Bento 16.
Por um lado, o americano encara o papado com um dever para o qual foi chamado, o que justificaria a decisão de permanecer até a morte. De outro, como especialista em direito canônico, é possível identificar traços em comum com Bento 16 e uma abertura à renúncia. “Ainda é cedo para dizer, mas vejo ele dividido sobre isso. Seja como for, Leão vai agir acreditando estar fazendo o melhor para o interesse da Igreja.”