O chefe torturador do Khmer Vermelho, Kaing Gueg Eav, defendeu hoje a sinceridade de seu “mais profundo arrependimento” pelos crimes que ele assumiu e de seu pedido de perdão às vítimas perante o tribunal internacional que lhe julga por crimes contra a humanidade em relação ao genocídio do Camboja.
“Meu arrependimento mostra a plena e sincera colaboração que mantenho com esta corte há 10 anos”, disse o acusado, apelidado de “Duch”, ao apresentar os argumentos finais da defesa.
Ele quis responder assim à promotoria e as vítimas que puseram em dúvida a sinceridade de seu arrependimento e lhe acusam de não ter dito toda a verdade nem haver assumido toda a responsabilidade nos fatos acontecidos na prisão secreta de Tuol Sleng ou S-21, que ele dirigiu e pelo qual passaram ao menos 12.273 pessoas antes de serem executadas.
“Sou responsável e sempre serei da morte das 12.273 pessoas”, disse “Duch”.
Tal como fez em várias ocasiões desde o início do julgamento em fevereiro, “Duch” voltou a pedir perdão às “almas das vítimas” e pediu a seus familiares que “abram as portas do perdão”.
“Me propus que voltem a me ver como parte da humanidade”, concluiu.
Apesar disso, o ex-oficial maoísta dedicou a maior parte de sua intervenção para atribuir seus atos ao medo perante seus superiores e à obrigação que tinha de cumprir ordens.
Para isso, “Duch” se remeteu aos expurgos internos nos anos prévios à tomada do poder por parte do Khmer Vermelho nos quais, segundo disse, “a política do partido era matar aos inimigos”.
O torturador disse ao tribunal que o uso da tortura era inevitável porque essa era a política decidida pelo partido e que as execuções eram aprovadas pelos comandantes do partido, grupo do qual ele se excluiu.
Kaing Guek Eav é o primeiro ex-oficial do Khmer Vermelho, e de menor categoria, que julgará o tribunal internacional organizado pela ONU e Camboja após longas e tortuosas negociações que começaram em 1997.
Quase dois milhões de cambojanos morreram por causa da crise de fome, doenças e aos expurgos políticos ordenados pelo regime maoísta de Pol Pot entre 1975 e 1979.
Ainda devem ser julgados Khieu Samphan, ex-presidente da República Democrática de Kampuchea; Nuon Chea, “irmão número dois” e ideólogo da organização; Ieng Sary, ex-ministro de Assuntos Exteriores; e sua esposa Ieng Thirit, ex-titular de Assuntos Sociais.
Pol Pot morreu na selva cambojana em 1998, quando o Khmer Vermelho estava à beira do desaparecimento pelas deserções e lutas internas.