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Celso Amorim diz que Escudo das Américas é cerco ao Brasil com argumento falso de combate ao crime

O Escudo das Américas é uma aliança dos Estados Unidos com 14 países latino-americanos lançada em março

Redação Jornal de Brasília

10/10/2026 16h30

celso amorim

RAPHAEL DI CUNTO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Assessor especial do presidente Lula (PT) para assuntos internacionais, Celso Amorim afirmou que o Escudo das Américas, iniciativa de cooperação de segurança liderada pelo presidente Donald Trump, é uma tentativa de cerco ao Brasil usando um falso argumento de combate ao crime organizado.

“Essa questão do Escudo das Américas põe o Brasil num cerco, cercado com base num argumento falso que é tratar a questão do crime organizado como se fosse terrorismo internacional”, disse Amorim em entrevista ao canal Tutaméia TV, no YouTube.

O Escudo das Américas é uma aliança dos Estados Unidos com 14 países latino-americanos lançada em março. O grupo apoiou um conjunto de sanções impostas pelo governo americano a 24 grupos criminosos que atuam na região, entre elas facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que a Casa Branca considera “narcoterroristas”.

A ofensiva, parte da guerra do governo de Donald Trump ao crime organizado e ao tráfico de drogas, prevê restrições migratórias e o congelamento de bens, dentre outras sanções.

Segundo Amorim, outros governantes recentes dos EUA tentaram exercer influência no Brasil, mas não havia nenhuma tentativa de intervenção ameaçadora. “Agora sim nós sofremos ameaças” disse. “Na realidade, é um esquema de dominação absoluta. O problema deles é a China”, afirmou.

O governo Lula se opôs à classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais, com o argumento de que isso permitirá ações do governo americano em território brasileiro e sanções a empresas nacionais. Especialistas em segurança também disseram que isso atrapalhará o combate as facções, ao mudar os protocolos de cooperação internacional existentes hoje.

Na quarta (7), o senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou em conversa com o presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, que vai incluir o Brasil no grupo se for eleito para a Presidência. Ele disputa o segundo turno das eleições contra o presidente Lula (PT).

“Eu vou com muita vontade e muita honra querer fazer parte também do Escudo das Américas, para fazer uma cooperação com a Colômbia e com os demais países que queiram se unir para combater essas facções narcoterroristas”, disse Flávio na conversa.

Flávio é aliado de Donald Trump e tem defendido na campanha eleitoral a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.

Liderado pelos EUA, o Escudo das Américas prevê o compartilhamento de inteligência e a coordenação de operações entre os países. A iniciativa faz parte do esforço da Casa Branca para mobilizar os países latino-americanos em torno de uma estratégia de política externa mais agressiva inspirada na doutrina Monroe.

A política do século 19 afirmava a primazia dos EUA sobre as Américas e é associada por críticos a intervenções americanas na região. O próprio Trump passou a chamá-la de “doutrina Donroe”, um trocadilho com seu nome que ganhou popularidade na mídia conservadora.

Outras ações do governo Trump incluíram o bombardeio americano de embarcações supostamente ligadas ao tráfico de drogas, pressão redobrada sobre Cuba e também sobre o Brasil às vésperas das eleições, além de maior cooperação com governos da região.

O Escudo das Américas reúne 15 países: Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago.

A aliança foi lançada por Trump em março na Flórida, ao lado de líderes de países com governos fortemente alinhados à Casa Branca. Colômbia e Peru juntaram-se à iniciativa posteriormente, após elegerem líderes de direita. Brasil e México, liderados por governos de esquerda, não participam.

Em discurso na ONU (Organização Nacional das Nações Unidas) em setembro, Trump disse que utilizaria “poder militar incomparável para proteger os interesses nacionais vitais dos EUA” na região, caso necessário.

Lula reagiu e afirmou na abertura da Assembleia Geral da ONU que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, e advertiu os países da região contra “tentações hegemônicas”.

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