Por Renata Bueno — advogada internacional, ex-parlamentar italiana e empreendedora*
Roma tem quase três mil anos de história para ser admirada. Mas uma cena cada vez mais comum nas cidades italianas nada tem de histórica: pessoas atravessando a rua com os olhos presos ao celular.
O governo italiano discute uma medida para enfrentar esse comportamento: multar pedestres que atravessem a rua distraídos com dispositivos eletrônicos. A proposta faz parte da minuta de um novo Código da Estrada e ainda não está em vigor.
Segundo informações divulgadas pela imprensa italiana, a multa poderia ficar em torno de 75 euros. O texto prevê que a regra valha inclusive fora da faixa de pedestres e reforça uma orientação simples: antes de atravessar, o pedestre deve ter certeza de que foi visto pelo motorista.
Mais do que uma discussão sobre multas, a proposta levanta uma questão importante: quem é responsável pela segurança no trânsito?
Durante décadas, o debate esteve concentrado principalmente nos motoristas. E com razão. Usar o celular ao volante é uma das formas mais perigosas de distração.
Mas o pedestre também faz parte do trânsito.
Quem atravessa uma rua olhando uma mensagem, assistindo a um vídeo ou completamente alheio ao movimento ao redor também pode provocar uma situação de risco. Um motorista atento pode não ter tempo suficiente para reagir a uma travessia inesperada.
Por isso, a ideia central da proposta italiana merece atenção: segurança no trânsito é responsabilidade de todos.
A minuta também prevê punições mais severas para motoristas que utilizam o celular ao volante. Em casos de reincidência, as multas poderiam chegar a 2.588 euros, acompanhadas da possibilidade de suspensão da carteira de habilitação.
A discussão, portanto, não coloca pedestres contra motoristas. Ela procura estabelecer responsabilidades para todos que compartilham o espaço público.
E essa reflexão vale também para o Brasil.
Nos últimos anos, a tecnologia transformou a maneira como nos relacionamos com o mundo. Celulares, fones de ouvido, relógios inteligentes e outros dispositivos fazem parte da nossa rotina. São ferramentas úteis, mas também podem nos desconectar do que acontece ao nosso redor.
Há vinte anos, atravessar uma rua significava olhar para os dois lados. Hoje, muitas vezes, significa olhar para uma tela.
É por isso que acredito que a educação precisa acompanhar a fiscalização. Uma multa pode punir. A educação pode mudar comportamentos.
Como advogada internacional e ex-parlamentar italiana, vejo valor em observar experiências de outros países não para simplesmente copiá-las, mas para entender o que pode contribuir para a nossa própria realidade.
A proposta italiana ainda está em discussão. Mas o debate já começou.
E talvez não precisemos esperar uma nova lei para fazer a nossa parte.
Guardar o celular por alguns segundos antes de atravessar uma rua parece um gesto pequeno. Mas pode evitar uma tragédia.
Roma construiu estradas há mais de dois mil anos. Hoje, o desafio é outro: fazer com que a tecnologia não nos faça esquecer que existe um mundo real acontecendo ao nosso redor.
No trânsito, chegar ao outro lado da rua com segurança deve ser mais importante do que responder a uma mensagem.
