Na corrida para frear as emissões causadoras do aquecimento global, especialistas têm chamado atenção para o chamado carbono azul, capturado e armazenado por ecossistemas costeiros como manguezais, marismas e pradarias marinhas. No Dia Mundial dos Oceanos, celebrado nesta segunda-feira (8), o tema foi destacado como parte das respostas às mudanças climáticas.
Esses ambientes funcionam como sumidouros de dióxido de carbono (CO₂), retirando o gás da atmosfera e ajudando a reduzir os impactos do aquecimento global. Segundo Natali Piccolo, diretora do Programa Costeiro Marinho da Conservação Internacional (CI-Brasil), o oceano absorve cerca de 30% das emissões globais de CO₂ e produz mais da metade do oxigênio que respiramos, de acordo com dados da SOS Oceano.
Além do papel climático, as vegetações costeiras oferecem abrigo para a biodiversidade, sustentam a pesca artesanal e ajudam a proteger comunidades costeiras contra erosão, ressacas e eventos climáticos extremos. Quando degradados, esses ecossistemas deixam de prestar serviços essenciais e ainda podem liberar à atmosfera o carbono acumulado ao longo de décadas ou séculos.
No Brasil, o maior sistema contínuo de manguezais do mundo fica na costa da Amazônia, condição que coloca o país em posição estratégica para liderar soluções baseadas na natureza voltadas ao enfrentamento da crise climática. Ainda assim, para a analista de conservação do WWF-Brasil, Marina Corrêa, o oceano recebe menos atenção do que outros biomas brasileiros. Ela afirma que o mar ainda é, em muitos aspectos, o sistema invisível da conservação brasileira.
Marina lembra que o Sistema Marinho-Costeiro brasileiro ocupa cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados, equivalente a aproximadamente 40% do território nacional, e que mais da metade da população vive nesse ecossistema. Mesmo assim, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica concentram a maior parte da atenção pública, política e financeira voltada à conservação.
O crescimento do interesse por projetos de carbono azul também tem ampliado as discussões sobre direitos territoriais e participação de comunidades tradicionais. Para Marina Corrêa, resultados duradouros dependem do respeito a esses direitos e da repartição justa dos benefícios gerados. Ela afirma que o sucesso dessas iniciativas não deve ser medido apenas pela quantidade de carbono armazenado, mas também pela capacidade de fortalecer territórios, conservar a biodiversidade e melhorar a qualidade de vida das pessoas que historicamente cuidam desses ecossistemas.
As organizações ambientais também ressaltam que proteger os oceanos significa proteger empregos, segurança alimentar, culturas tradicionais e formas de subsistência construídas ao longo de gerações. Natali Piccolo lembra que, globalmente, a maior renda do oceano é gerada pela pesca, que sustenta 100 milhões de empregos e produz 80 milhões de toneladas de pescado marinho, além de 30 milhões de toneladas da aquicultura marinha.
No Brasil, cerca de 1,7 milhão de pescadores artesanais dependem diretamente da saúde dos ecossistemas marinhos, segundo o Registro Geral da Atividade Pesqueira, do Ministério da Pesca e Aquicultura. Nesse contexto, instituições públicas e organizações da sociedade civil defendem atuação conjunta para preencher lacunas de proteção, manejo e restauração de ecossistemas marinhos, como manguezais, recifes de corais e restingas.
Marina Corrêa afirma ainda que a estratégia do WWF-Brasil para os próximos anos está organizada em quatro frentes: fortalecimento das áreas marinhas protegidas, conservação e restauração de recifes de coral, promoção de uma transição energética justa e incidência política para fortalecer a governança dos oceanos no Brasil e internacionalmente.
*Com informações da Agência Brasil