Argentina e Uruguai concluíram hoje em Nova York com a mediação da Espanha a terceira rodada de conversas para resolverem o conflito das fábricas de celulose às margens do Rio Uruguai, here que faz fronteira entre os dois países, em um ambiente “positivo” e “construtivo”.
“Foi um passo positivo no caminho para o diálogo direto”, disse hoje o embaixador da Espanha na ONU e mediador da negociação, José Antonio Yáñez-Barnuevo, acrescentando que sai “esperançoso e encorajado a continuar trabalhando” com as partes.
As delegações foram encabeçadas pelos ministros de Relações Exteriores argentino, Jorge Taiana, e do Uruguai, Reinaldo Gargano. A Espanha foi comandada por seu chanceler, Miguel Ángel Moratinos.
Também participaram do encontro Alberto Fernández, chefe de gabinete do presidente da Argentina, Néstor Kirchner, e Gonzalo Fernández, secretário da Presidência do Uruguai.
A reunião, que terminou com um almoço de trabalho na residência do embaixador espanhol, começou com um encontro entre o chefe de gabinete e o secretário. Mais tarde, os três ministros e o mediador uniram-se aos dois. O grupo conversou por cerca de três horas.
“A reunião se desenvolveu em uma atmosfera cordial e positiva entre ambas as partes. Vamos continuar trabalhando por esse caminho. Foram pedidas a nós a renovação e a intensificação do trabalho”, disse o diplomata espanhol ao término do encontro, afirmando que as partes concordaram em não fazer declarações sobre o conteúdo do tratado.
Moratinos explicou que foi escolhido “porta-voz da reunião para evitar mal-entendidos”. Ele ressaltou, além disso, que “o diálogo contínuo contribui para as boas relações entre os dois países”.
Esta terceira rodada de negociações – após a primeira em Madri e a segunda também em Nova York – foi precedida por declarações de Kirchner que causaram certas expectativas.
Kirchner, que esteve em Nova York para a 62ª Assembléia Geral da ONU, disse na quinta-feira que “não havia nada a fazer” sobre a controvérsia causada pela instalação de uma indústria de celulose da finlandesa Botnia na localidade uruguaia de Fray Bentos, e que só restava esperar a decisão da Corte Internacional de Justiça (CIJ) de Haia.
“A fábrica já está aí. Não há nada mais a fazer, apenas esperar (a decisão de) Haia. É preciso acatar a decisão, seja ela qual for, e assim o assunto termina”, afirmou o presidente argentino.
Estas palavras foram interpretadas pela mídia da Argentina como uma aceitação por parte do país de que a solução do conflito passa pela Justiça internacional.
Perguntado sobre esse assunto, o mediador espanhol não quis comentar as palavras do presidente argentino, mas afirmou que “ainda há muito trabalho a fazer”.
Antes da reunião, Taiana disse que o Governo de seu país estava presente ao encontro com vontade de “trabalhar” e com “a melhor disposição em colaborar com o processo de mediação” da Espanha.
Por sua vez, o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, esclareceu na segunda-feira que seu Governo está “dialogando, mas não negociando” com o da Argentina sobre o conflito da unidade de fabricação de celulose.
A mediação espanhola é incentivada pelo rei Juan Carlos, que aceitou o pedido de facilitar o diálogo entre as partes durante a Cúpula Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo realizada em Montevidéu no final de 2006.
Argentina e Uruguai assinaram em 20 de abril deste ano em Madri um acordo que prevê a continuação do diálogo direto para solucionar a crise desencadeada pela construção da papeleira.
Essa decisão tomou forma na chamada “Declaração de Madri”, na qual argentinos e uruguaios aceitaram que os contatos sejam feitos em nível técnico e político nas áreas de construção da instalação e de circulação pelas rotas e pontes que unem os países.
O acordo prevê também a aplicação dos estatutos de uso do rio Uruguai e medidas de proteção do meio ambiente na região e de desenvolvimento sustentável na zona afetada pela fábrica de celulose.
Yáñez-Barnuevo afirmou que, por enquanto, não existe uma data certa para uma nova reunião e que também não há prazo algum para as negociações, além de ressaltar que as partes “trabalharão nas próximas semanas em todos os níveis”.
“Cada reunião é um passo, e esta foi claramente um deles. Não foi um passo para trás. Estamos caminhando (…) Haverá um prazo que atenda a ambas as partes”, comentou após acrescentar que estava “convencido de que é possível progredir”.
Houve poucas mudanças nas posições de cada país desde que a Argentina acusou o Uruguai em 2006 na CIJ de autorizar unilateralmente a instalação da fábrica à beira de um recurso fluvial que é de administração comum.
O Uruguai contestou a posição argentina com outro processo em Haia, devido à interrupção do tráfego nas pontes entre os dois países feita por grupos de moradores da província de Entre Ríos, na argentina.
A decisão da Corte Internacional sobre este caso deve ser anunciada provavelmente no primeiro semestre de 2008.