Em um impasse tenso que durou seis horas em frente à residência oficial do presidente da Coreia do Sul, a polícia e agentes do gabinete anticorrupção do país desistiram de prender Yoon Suk Yeol nesta sexta-feira (3) depois de serem barrados pela guarda presidencial.
A ordem de prisão foi expedida pela Justiça coreana na última segunda-feira (30) depois que Yoon se recusou a prestar depoimento a respeito da tentativa de autogolpe em dezembro, caso que motivou seu impeachment pelo Parlamento.
Com os protestos de apoiadores de Yoon e a resistência dos guardas presidenciais, o gabinete considerou a prisão “praticamente impossível devido ao impasse em curso”. O comunicado do órgão diz que “a preocupação com a segurança do pessoal no local levou à decisão de interromper a execução” e que os próximos passos serão decididos após uma revisão.
Manifestantes a favor do presidente organizaram um protesto contra o mandado em frente ao prédio, dizendo que estavam dispostos a impedir a prisão de Yoon mesmo que isso custasse suas vidas. Depois de desistir de executar a ordem judicial, o gabinete anticorrupção disse que vai investigar os comandantes da guarda presidencial por obstrução de justiça.
O episódio abre uma crise constitucional sem precedentes na Coreia do Sul. Embora tenha sofrido um impeachment na Assembleia Nacional que resultou em seu afastamento do cargo, Yoon tecnicamente ainda é presidente até que o Tribunal Constitucional chancele a decisão, e por isso tem direito a permanecer na residência oficial com uma equipe de segurança.
O gabinete anticorrupção tem até segunda-feira (6) para executar o mandado de prisão pelas acusações de insurreição e abuso de poder relacionados à declaração de lei marcial que suspendeu os direitos políticos no país em 3 de dezembro.
A colaboração dos seguranças oficiais na prisão de Yoon era incerta desde o início. Nas últimas semanas, membros da força bloquearam diversas vezes a execução de mandados de busca na residência presidencial.
Os investigadores até conseguiram, nesta sexta-feira, acessar a residência do presidente afastado, mas soldados da segurança de Yoon “entraram em confronto com o gabinete”, disse um militar sul-coreano à agência de notícias AFP sob condição de anonimato.
As equipes de segurança de Yoon disseram que estavam “em negociações” com investigadores que tentam executar o mandado de prisão.
Yoon Kap-keun, advogado do presidente, insistiu nesta sexta-feira que a ordem de prisão é “ilegal e inválida” e que, portanto, a sua execução “é ilegítima”. “Ações legais serão tomadas em relação à execução ilegal da ordem”, afirmou.
Segundo a imprensa sul-coreana, o objetivo do gabinete anticorrupção é prender Yoon e transferi-lo para interrogatório em Gwacheon, a 13 quilômetros da capital, Seul.
Depois disso, ele pode continuar detido por até 48 horas sob o atual mandado de prisão. Para mantê-lo preso por mais tempo, os investigadores deverão solicitar outra ordem à Justiça.
O presidente está afastado do cargo desde 14 de dezembro, quando a Assembleia Nacional do país aprovou seu impeachment. No sistema político sul-coreano, após a aprovação do legislativo, o presidente é afastado e o Tribunal Constitucional decide, em até 180 dias, se ele perde o posto ou não.
A crise começou em 3 de dezembro, quando Yoon declarou lei marcial e agentes do exército tentaram impedir que a Assembleia votasse a implantação do decreto.
Segundo um documento divulgado pela promotoria do país no sábado (28), o presidente disse ao chefe do comando de Defesa de Seul, Lee Jin-woo, que as forças militares poderiam disparar, caso necessário, para entrar no local.
“Eles [militares] ainda não entraram? O que estão fazendo? Arrombe a porta e tire-os [parlamentares] de lá, mesmo que seja atirando neles”, teria dito Yoon a Lee.
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