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Mundo

A tempestade Greta Thunberg

Em pouco mais de um ano, a estudante sueca tomou o mundo de assalto com a força de seu ativismo, levando a um movimento global em defesa do clima e do futuro — e a algumas críticas

Marcus Eduardo Pereira

27/09/2019 5h51

Grace Perpetuo e Larissa Galli
redacao@grupojbr.com

Entre admiradores (que veem nela a inesperada heroína da redenção do mundo) e detratores (que se esforçam para desqualificá-la sob qualquer pretexto), a jovem estudante e ativista do clima Greta Thunberg, 16 anos, segue trilhando seu caminho extraordinário. Ao redor do mundo, a jovem sueca vem desencadeando um efeito que dá fôlego àqueles que insistem em acreditar no futuro diante das inegáveis alterações climáticas em curso.

Trata-se do “efeito Greta” — um movimento de jovens que, no último dia 20, às vésperas da Cúpula do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, reuniu milhões ao redor do mundo cobrando dos governos ações concretas em resposta à crise climática.

(Aqui, em São Paulo, crianças tomaram os microfones para defender o clima, criticar o uso de agrotóxicos e o consumo excessivo de carne. Nas mãos, faixas com mensagens como “por um mundo sem desmatamento”, ao som de gritos de “se você não mudar, não vai dar para respirar”. Em Brasília, os jovens manifestantes se reuniram em frente à Biblioteca Nacional e caminharam em direção ao Congresso Nacional. Cartazes e faixas diziam “somos a natureza”, “menos carne, mais floresta” e “não se respira dinheiro”.)

Mas não é só: o “efeito Greta” se refere também aos resultados concretos da ação iniciada pela jovem em termos de políticas pelo clima.
Hype

Na última semana — após seu contundente discurso na abertura da Cúpula do Clima na segunda-feira — o nome de Greta explodiu em meio ao hype. Suas palavras corajosas e sua indignação — Greta raramente sorri, mas ela guarda uma certa candura ainda infantil — correram o mundo, despertando esperança, admiração, questionamentos e escárnio. Nesses tempos estranhos, não é difícil entender o por quê: quando em evidência, as pessoas estão sujeitas a avaliações extremas, sumárias e maniqueístas, para o bem e para o mal.

Mas quem é Greta Thunberg, afinal? Para responder ao menos superficialmente, é preciso observá-la com discernimento.
Há pouco mais de um ano — depois de um longa e silenciosa depressão —, a jovem estudante decidiu transformar seu desespero quanto aos rumos apocalípticos do mundo em protesto solitário: com um cartaz no qual escreveu “greve da escola pelo clima”, passou a faltar à aula às sextas-feiras para postar-se diante do parlamento sueco.

Foi assim que deu início ao movimento que (depois batizado de #FridaysForFuture, ou sextas pelo futuro) se espalhou rapidamente pelo mundo, oferecendo a Greta palanques cada vez mais expressivos. Sua eloquência parece crescente. Não por acaso, Greta está indicada ao Prêmio Nobel da Paz.

Esse salto quântico no alcance da campanha de Greta está cercado de controvérsias e especulações, porém. Há quem diga que a adolescente é mera marionete, financiada por grandes bilionários globais (mecenas das causas ambientais) e por empresários do ramo de energias limpas e renováveis — fatos talvez irrelevantes e que, em última instância, não constituem qualquer crime.

Greta é também atacada por ser portadora da Síndrome de Asperger – forma branda de autismo – (segundo ela, um “superpoder” que a concede foco extraordinário); por seu ar grave; por ser branca e privilegiada; por ser menina; por ser jovem; e por receber o apoio dos pais, agora dedicados a gerenciá-la.

Entretanto, ainda que Greta Thunberg não possa ser vista como o único e maior símbolo da luta pelo clima — as populações indígenas ocupam esse espaço há anos, por exemplo —, não há como negar que ela faz bom uso de sua privilegiada posição de jovem cidadã sueca para levar adiante uma mensagem absolutamente urgente.

A bordo de sua força, a recém-batizada “geração Greta” parece estar despertando globalmente, demonstrando uma crescente consciência política e cada vez mais força para lutar pelo futuro da civilização.
Não é exagero. A não ser pelos negacionistas mais renitentes — mesmo em face de evidências científicas reiteradas diária e concretamente ao redor do mundo —, as alterações do clima já são reconhecidas pela comunidade global como fato.

Lamentável

A semana que consagrou definitivamente a voz de Greta em escopo global acabou de forma lamentável, no Brasil, com mais uma peça na campanha de ódio, mentiras e desinformação que a cerca. Em postagem na noite de quarta-feira no Twitter, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) publicou uma foto evidentemente fake em que Greta aparece comendo, no interior de um trem, diante de crianças negras, famintas. “’Vocês roubaram minha infância…’ disse a garota financiada pela Open Society de George Soros”, escreveu, em tom de escárnio. A alegação já foi amplamente desmentida — e, de qualquer forma, não há como voltar atrás: o efeito Greta já tem vida própria.

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