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Todas as políticas econômicas devem ser explícitas para análise de custos e benefícios

Todas as escolhas envolvem, portanto, custos e benefícios, que precisam ser explicitados. Daí a importância de que sejam apresentadas

Antonio Corrêa de Lacerda*

Nas últimas semanas tem havido expressiva volatilidade nos mercados financeiros, a partir do agravamento da crise institucional. O quadro denota a combinação de fatores econômicos, políticos, institucionais e sociais preocupantes. À pressão inflacionária se soma o baixo nível de atividade, mercado de trabalho deteriorado, elevação dos níveis de pobreza e de insegurança alimentar, assim como os efeitos potenciais da crise hídrica e energética.

Embora haja progressos no combate à pandemia de covid-19, resultando em redução dos níveis de contaminação e de óbitos, prevalece o risco das novas variantes do vírus. Além disso, há uma lenta evolução na imunização da população, até o momento, somente pouco mais de um terço do total recebeu a dose única ou a segunda dose da vacina.

O conjunto de variáveis envolvidas tem reduzido as perspectivas de desempenho da economia brasileira. Embora o resultado positivo do Produto Interno Bruto (PIB) para 2021 já esteja “contratado”, muito em função dos efeitos estatísticos da recessão do ano anterior, fica cada vez mais claro o limite da expansão futura. Os prognósticos de crescimento econômico para 2022 têm sido revistos para baixo, não se afastando até o risco de estagnação e mesmo recessão, a depender, dentre outros fatores, da capacidade de adoção e gestão das medidas de política econômica.

Foi diante desse cenário que se realizou, entre 8 e 10 de setembro, o XIV Congresso Brasileiro de Economia (CBE), sob o título Perspectivas para a Economia Brasileira Pós-pandemia. Organizado pelo Conselho Federal de Economia (Cofecon) e pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP). No CBE cerca de 110 palestrantes nacionais e internacionais debateram temas de grande relevância para mais de 1.500 congressistas. O mosaico de visões e abordagens de economistas das mais variadas correntes teóricas denota que há alternativas ao modelo em voga no Brasil, que pode ser acompanhado no link: www.cofecon.org.br

Para além das questões conjunturais gravíssimas prevalecem, não sem correlação, aspectos estruturais determinantes. Os investimentos, fundamentais para garantir um crescimento robusto e sustentável no longo prazo, permanecem em nível aquém do necessário. A Formação Bruta de Capital Fixo, total das inversões em infraestrutura, construção civil e aquisição de máquinas e equipamentos, representa apenas 18% do PIB, um nível muito abaixo da média mundial, de 26,7%, e ainda mais distante da média dos países emergentes, de 33,2%.

Desse total, no Brasil, o investimento público, importante fator contracíclico nas crises, representa apenas 2,4% do PIB, pouco mais da metade da média do período 2012-2014, antes da crise. Tais investimentos são relevantes pelo seu impacto multiplicador na economia, mas também pelo “efeito demonstração” para as inversões privadas.

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Já as decisões de investimento privado são motivadas pelas expectativas de crescimento da demanda e das taxas de retorno. Portanto, o quadro se retroalimenta, em um “ciclo vicioso”: investimos pouco porque não temos expectativa de crescimento sustentado; e crescemos pouco porque não investimos!

Não há um caminho único nas alternativas de políticas econômicas, ao contrário do que sugere uma análise “senso comum”. Todas as escolhas envolvem, portanto, custos e benefícios, que precisam ser explicitados. Daí a importância de que as possibilidades sejam apresentadas e debatidas no âmbito da sociedade. As alternativas de política econômica são técnicas, mas as escolhas, políticas!

*PRESIDENTE DO CONSELHO FEDERAL DE ECONOMIA (COFECON) E PROFESSOR-DOUTOR DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ECONOMIA POLÍTICA DA PUC-SP

Estadão Conteúdo

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