Rio e São Paulo, 27 – A desocupação no País ficou em 5,3% no trimestre até julho, o menor nível para o mês desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), em janeiro de 2012. Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A manutenção da taxa de desemprego em mínimas históricas sinaliza um mercado de trabalho forte, com implicações para a inflação e para os juros, avaliam economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast.
O resultado de julho veio em linha com as expectativas do mercado. A mediana das estimativas do Projeções Broadcast apontava para 5,3% de desocupação, com previsões entre 5,2% e 5,7%. A taxa de desemprego era de 5,8% no trimestre encerrado em abril.
Para Rafael Perez, da Suno Research, os dados de julho indicam que o emprego resiste, apesar da desaceleração econômica. Claudia Moreno, do C6 Bank, diz que os números da Pnad confirmam a força do mercado de trabalho, com o desemprego em patamar historicamente baixo. Eles ressaltam, porém, que essa resiliência pode ser um obstáculo para o arrefecimento da inflação e “a condução da política monetária pelo Banco Central”
“A combinação entre desemprego historicamente baixo, massa salarial em níveis recordes e rendimentos em recuperação tende a dificultar uma desaceleração mais consistente da inflação de serviços e dos componentes mais sensíveis à demanda, limitando o ritmo de flexibilização da política monetária”, diz Perez.
Para o C6, o desemprego baixo e o crescimento da renda são dados positivos, mas pressionam a inflação, principalmente a de serviços. O banco projeta taxa de desemprego de 5,5% ao fim de 2026, e os números da Pnad de julho não alteram o cenário de Selic em 14% até o fim do ano. “Ainda assim, não descartamos a possibilidade de novos cortes em 2026. A magnitude total do ciclo, como sinalizado pelo próprio Copom, dependerá da evolução dos dados e das novas informações disponíveis”, diz Claudia.
A Pnad também mostrou aumento da população ocupada e da população economicamente ativa. A população ocupada alcançou 103,3 milhões de pessoas, o maior contingente da série histórica Houve alta de 1% ante o trimestre anterior, com ingresso de 1 milhão de pessoas no mercado de trabalho.
De acordo com o gerente da Pnad Contínua, William Kratochwill, o aumento de 1 milhão na população ocupada veio de duas fontes: metade são pessoas que estavam desocupadas e conseguiram trabalho, o que explica a queda de 503 mil no contingente de desempregados na passagem do trimestre; e a outra metade do aumento da força de trabalho, estimada em 109,2 milhões de pessoas, a maior da série histórica.
RENDA
O rendimento real do trabalho, contudo, apresentou uma ligeira queda de 0,7% no trimestre encerrado em julho, para R$ 3.762 – variação que para o IBGE não é estatisticamente significativa e, portanto, indica estabilidade. Em relação a um ano antes, o rendimento médio cresceu 3,3%.
A alta da ocupação no trimestre até julho se concentrou no setor de construção civil, com avanço de 5,1% – os demais setores não tiveram variação significativa. Para Kratochwill, o perfil das novas vagas pode ter contribuído para limitar o avanço da renda média. “Pode ser que o que a gente esteja presenciando agora é a absorção dessa mão de obra com um nível salarial mais baixo, mais próximo da média.”
Estadão Conteúdo