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Economia

Suspeitas de fraude de carbono do Master são graves e não podem contaminar o mercado, diz secretária

Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda afirma que caso envolvendo empresas ligadas ao Banco Master levanta “sinal amarelo” para credibilidade do mercado de carbono

Redação Jornal de Brasília

06/03/2026 13h30

Foto: Banco Master/Divulgação

Foto: Banco Master/Divulgação

JOÃO GABRIEL
FOLHAPRESS

A secretária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, Cristina Reis, disse que as suspeitas de fraude envolvendo ativos ambientais de empresas ligadas ao Banco Master são graves e que a regulamentação do governo federal deve garantir que esses problemas não contaminem o setor como um todo.

Ela disse que o caso, revelado pela Folha de S.Paulo, não diz respeito a créditos de carbono, que é regulado pelo Executivo, mas sim a estoque de carbono, um conceito diferente. Mesmo assim, admitiu que a situação ligou um “sinal amarelo”, por colocar em xeque a credibilidade do setor.

“A gente não quer que suspeitas como essas contaminem o mercado, porque há empresas sérias atuando, desenvolvedoras de projetos. A gente não quer gerar nenhum tipo de medo parte dos investidores, ao contrário, por isso que a regulação é muito importante, para trazer esse farol regulatório de transparência, de integridade”, afirmou, nesta sexta-feira (6).

A Folha de S.Paulo revelou em uma série de reportagens que empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, usaram ativos ambientais para inflar seus valores de mercado em R$ 45 bilhões.

Isso foi feito com base em uma fazenda irregular, que ficava em terras da União e, a partir daí, os valores destes ativos foram aumentados artificialmente, em uma manobra contábil.

O governo vai criar um grupo de trabalho que vai tratar de projetos de carbono em terras da União, da regularização fundiária destas áreas e sua possível concessão e que também mira a redução de contencioso jurídico e combate a fraudes.

A regulamentação do mercado de carbono, diz Reis, vai deixar claro o que é “o mercado voluntário, o que é um mercado regulado, como se gera um crédito de carbono, como ele é diferente do estoque de carbono”.

A partir disso vai se tornar evidente algo “tão absurdo quanto esse [caso do Master] que [atuou para] transformar um estoque de carbono em crédito de carbono, e dizer que vale bilhões”.

“Isso aí foi uma coisa muito tosca. Então, é preciso detectar esse tipo de comportamento como absurdo imediatamente. É nesse sentido que a agenda regulatória e de disseminação de informação e conhecimento [contribui]”, completa.

PRÓXIMOS PASSOS DA REGULAMENTAÇÃO DO MERCADO


A Fazenda anunciou nesta sexta as entidades privadas que irão compor o Comitê Técnico Consultivo Permanente (CTCP) do mercado de carbono, e que a partir de agora irão trabalhar nas próximas fases da regulamentação do setor. A primeira reunião acontecerá ainda neste mês.

São elas IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás), CNI (Confederação Nacional da Indústria), Unica (união da indústria de cana e biocombustíveis), Abrema (resíduos), CNT (Confederação Nacional dos Transportes), CNA (da Agricultura e Pecuária) e um conjunta do mercado financeiro (que envolve representantes de seguros, capitais e bancos).

O órgão terá dois principais objetivos neste momento. Primeiro, a definição do escopo de quais gases de efeito estufa serão levados em consideração e como será o relato e monitoramento dessas emissões.
Segundo, os critérios para credenciamento e metodologia de mensuração.

Essas definições resultarão em dois programas: de relato de emissões e compensações de emissões. O primeiro deve estar pronto até junho, e o segundo, até o final do ano.

Essas são as balizas para a comercialização dos créditos regulados e para que projetos privados do mercado voluntário possam atuar neste setor por meio dos chamados offsets. O objetivo é ajudar a identificar quais empresas atuam em conformidade com as leis e contribuir para o combate a fraudes, como as do Master.

O MERCADO DE CARBONO NO BRASIL

A estimativa é que o mercado regulado de carbono tenha potencial de gerar R$ 57 bilhões em receitas até 2040 e um crescimento adicional de 8,5% do PIB (Produto Interno Bruto) até 2050.

Para o mercado voluntário a previsão é que ele tenha movimentado, já em 2025, R$ 800 milhões em créditos de carbono ofertados.

O mercado regulado é o que fica sob escopo do Executivo e é composto setores como a siderurgia.
Atividades que produzam acima de 25 mil toneladas de gases de efeito estufa são obrigadas a relatar suas emissões e também reduzí-las ou compensá-las por meio dos créditos. Aquelas acima de 10 mil toneladas precisam monitorar e registrar, mas não necessariamente diminuir.

Já o mercado voluntário é composto por negociações privadas, e funciona de forma independente: um projeto emite créditos de carbono e oferece a quem quiser comprá-los.

A regulamentação do governo federal vai permitir uma intersecção destes dois mercados, nos quais os voluntários poderão oferecer seus créditos às empresas dentro do escopo regulado.

ÓRGÃO GESTOR E FUNDOS DE INVESTIMENTO

Até o final do ano, também deve ser apresentada a primeira proposta do órgão gestor que irá fiscalizar e regular o mercado —ainda não há definição sobre qual será seu formato, se será agência, instituto ou fundação, por exemplo.

A Fazenda também pretende instituir um grupo de trabalho para ver oportunidades de atuação da União neste mercado, a partir de terras próprias.

Outro objetivo é incentivar que, no futuro, existam fundos de investimento, regulados pela CVM (Conselho de Valores Mobiliários), baseados em ativos verdes e abertos a pessoas jurídicas e físicas.

O governo pretende publicar até maio um guia de projetos, atividades e oportunidades neste setor. O objetivo é fazer com que o Brasil se torne um polo mundial de negociação de créditos de carbono —o governo atua para integrar o mercado brasileiro com outros no mundo, e deve publicar as primeiras diretrizes para isso neste ano.

Está em fase de estruturação a plataforma digital para registro das empresas deste mercado e comercialização de créditos.

O governo irá iniciar um programa de encerramento humanitário de lixões, com participação de catadores e das comunidades afetadas.

A secretária lembrou que, a partir da segunda metade do ano, uma série de atividades (como consultas públicas) ficam limitadas, em razão do período eleitoral. Por isso, o calendário concentra as entregas no primeiro semestre ou após as eleições.

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