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Economia

Setor automotivo cobra do governo Lula testes para aumentar etanol na gasolina para 32%

Conforme informações, a decisão de ampliar a mistura foi tomada pelo governo sem consultar os fabricantes

Redação Jornal de Brasília

07/05/2026 5h48

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Foto: José Cruz/Agência Brasil

ANDRÉ BORGES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

A proposta do governo de elevar a mistura obrigatória de etanol na gasolina para 32% provocou reação da indústria automotiva, que acionou o governo para apresentar suas preocupações técnicas com a mudança, além de cobrar testes sobre os efeitos dessa elevação em carros e motocicletas.

Conforme informações obtidas pela Folha de S.Paulo, a decisão de ampliar a mistura foi tomada pelo governo sem consultar os fabricantes. O uso de 32% de etanol na gasolina é inédito e, conforme as regras do setor, exige testes que excedem esse percentual em dois pontos percentuais, chegando a 34%.

Esses testes, porém, nunca foram feitos.

Questionado sobre o assunto, o MME não se pronunciou até a publicação deste texto. O Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio) declarou apenas que “a referida questão é uma decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE)”.

A mudança na mistura, prevista inicialmente para ser definida em reunião desta quinta-feira (7) do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), foi postergada para segunda (11). O objetivo do governo é reduzir a importação de gasolina, em meio à crise internacional de preços puxada pela guerra no Oriente Médio.

O custo de importação da gasolina subiu 61% desde o início do conflito, segundo estimativa da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis).

Hoje, a gasolina brasileira já contém 30% de etanol anidro misturado, o chamado “E30”. O governo decidiu elevar esse percentual para 32%, inicialmente por 180 dias, com possibilidade de prorrogação.

Como mostrou a Folha, o MME (Ministério de Minas e Energia) estima que a mudança pode reduzir em cerca de 454 milhões de litros a necessidade de importação de gasolina no período, além de diminuir as emissões de carbono em aproximadamente 552 mil toneladas de CO₂.

Para defender a proposta, o ministério afirma que realizou testes com misturas de E30 e E32 em 2025, com apoio do Instituto Mauá de Tecnologia. Esses testes envolveram veículos leves e motocicletas, com modelos flex e gasolina.

A decisão de ter testado a mistura com 32% no ano passado já atendia a exigências legais do setor. Uma lei de 1993 exige que seja testado efeito de 1% acima da mistura. Outro 1% adicional está ligado a normas técnicas do setor. Por isso, quando mediu a mistura de 32%, o governo procurava atender a obrigações para colocar a mistura de 30% nas bombas de combustível.

Agora, porém, quando quer anunciar o aumento para 32%, não houve testes de até 34%, como determinam as regras do setor.

As montadoras afirmam que impactos com corrosão, abrasividade e o comportamento de motores no longo prazo deveriam ser testados. Esses testes não são feitos de um dia para o outro. Exigem tempo e pesquisa, levando meses para serem concluídos.

A Folha teve acesso a uma carta que a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) enviou ao MME na semana passada para tratar do assunto. O documento também é assinado pela Abeifa (Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores) e o Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores).

No documento, as instituições apoiam o uso da mistura de etanol na gasolina, mas afirmam que “teores acima de 30% trazem desafios de engenharia que demandam validação rigorosa, uma vez que a frota circulante não foi desenvolvida considerando elevados teores de biocombustível”.

A frota nacional supera 60 milhões de veículos, quando considerados veículos e motos, sendo aproximadamente 12% de automóveis e 70% de motocicletas movidos exclusivamente a gasolina.

“Na validação do E30, foram realizados ensaios para avaliar o funcionamento dos veículos e determinar se as diferenças entre a operação com combustíveis E27, E30 e E32 (tolerância permitida no mercado) eram relevantes, com foco em desempenho e dirigibilidade. Ressalta-se, contudo, que não foram realizados ensaios de emissões ou de autonomia considerando o E32, mas apenas com E30”, afirmam as associações.

O documento alerta que o aumento do teor de etanol pode comprometer equipamentos como mangueiras e vedações em sistemas não projetados para essa concentração, levando à redução da durabilidade dos componentes. A carta também menciona que o etanol pode favorecer corrosivos em componentes metálicos do sistema de combustível.

“Uma vez aprovado o uso do E32, que, considerando a tolerância de especificação, poderá atingir até 34% de etanol no mercado, elevam-se os riscos para as tecnologias dedicadas exclusivamente à gasolina, uma vez que não há evidências do seu pleno funcionamento considerando esses níveis de mistura”, dizem as associações no ofício.

Questionada pela Folha, a Anfavea declarou apenas que acompanha o assunto com preocupação.

O diretor da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), Sergio Oliveira, disse à reportagem que soube da nova mistura pela imprensa e que não houve nenhuma consulta sobre o assunto.

“Sempre fomos favoráveis à mistura do etanol, não temos nenhuma resistência a isso, mas estamos preocupados com essa ausência de debate sobre esse tema”, disse. “O que nos resta é argumentar sobre os aspectos técnicos dessa medida. Já tinha apontado preocupações com parâmetro do E30, que levou a certas falhas de dirigibilidade, alterando o comportamento da motocicleta em aceleração e partidas a frio, por exemplo”.

Nos Estados Unidos, postos operam predominantemente com gasolina E10. Na União Europeia, adota-se, em regra, as misturas E5 e E10. No Mercosul, a Argentina e o Uruguai operam com misturas próximas a E12 e E10, respectivamente, segundo informações da Abraciclo.

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