PAULO RICARDO MARTINS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A parcela de paulistas que se dizem contra a privatização do porto de Santos e de serviços de trens e metrô da região metropolitana de São Paulo deu um salto nos últimos anos, segundo pesquisa de opinião do Datafolha.
De acordo com o instituto, 56% dos entrevistados se declararam contrários à desestatização das linhas de metrô, um aumento de 9 pontos percentuais na comparação com a última pesquisa, realizada em março de 2023. O percentual dos que aprovam a privatização do serviço caiu de 48% para 37%.
Na mesma base comparativa, a fatia daqueles que desaprovam a privatização das linhas de trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) cresceu 8 pontos percentuais, alcançando o patamar de 53%. Os que se declaram a favor são 39%, ante 49% em 2023.
Os entrevistados pelo Datafolha responderam se eram “a favor ou contra a privatização das linhas de trem de passageiro” e se eram “a favor ou contra a privatização das linhas de metrô” do estado de São Paulo. O instituto de pesquisa usou a palavra “privatização” por ser mais conhecida pela população do que “concessão”.
Para especialistas, a percepção mais negativa dos paulistas em relação ao repasse dos serviços à iniciativa privada se deve a experiências ruins com algumas privatizações.
Atualmente, as linhas 1-azul, 2-verde e 3-vermelha do metrô e 15-prata e 17-ouro do monotrilho são operadas pelo Metrô, companhia estatal gerida pelo Governo de São Paulo.
A linha 4-Amarela é operada pela Motiva (ex-CCR) desde 2010, em um contrato de PPP (parceria público-privada) com prazo de 30 anos. A empresa também é responsável pela operação da Linha 5-lilás, que liga o Capão Redondo à Chácara Klabin, na região da Vila Mariana, zona sul.
No fim de junho, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que pretende retirar a linha 17-ouro do plano de concessões e deixar a gestão do ramal com o Metrô. A linha faz parte do contrato de concessão de 2018 com a ViaMobilidade (que trocou de nome para Motiva).
Tarcísio disse que pode compensar diferenças de reequilíbrio econômico-financeiro com a quebra de contrato em projetos de ampliação das linhas já operadas pela concessionária.
Já a Linha 6-laranja, recém-inaugurada na capital paulista quase 20 anos após ser anunciada, foi concedida à Linha Uni, concessionária da empresa espanhola Acciona.
A CPTM iniciou em maio a transição das linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade, que inclui o Expresso Aeroporto, da CPTM (Companhia Paulista de Transportes Metropolitanos) para a Trivia Trens, do Grupo Comporte -holding voltada ao setor de transporte criada por Nenê Constantino, da família fundadora da companhia aérea Gol. Somente em julho de 2027, após um ano de supervisão, a concessionária assumirá integralmente os trabalhos.
A companhia também controla a concessão da linha 7-Rubi.
Atualmente, das seis linhas do trem metropolitano concedidas à iniciativa privada, quatro têm participação do Grupo Comporte (linhas 7-rubi, 11-coral, 12-safira e 13-jade). Outras duas, 8-diamante e 9-esmeralda, são operadas pela Motiva.
Em todos esses últimos casos citados, as linhas de metrô e trem foram concedidas à iniciativa privada, com prazo de operação definido em contrato. Os ramais não foram privatizados -quando há venda definitiva do patrimônio a uma empresa.
PORTO DE SANTOS E SABESP
Metade dos entrevistados pelo Datafolha também se opuseram a uma eventual privatização do porto de Santos, aumento de 5 pontos percentuais na comparação com a pesquisa de 2023. A parcela daqueles que se dizem favoráveis à desestatização caiu de 43% para 31%.
A privatização do porto de Santos era um dos principais projetos de Tarcísio de Freitas quando comandava o Ministério da Infraestrutura no governo Jair Bolsonaro (PL). O ex-presidente privatizou o porto de Vitória e se preparava para licitar o de Santos, antes da derrota nas urnas em 2022.
A gestão Lula não deu sequência ao processo de privatização de autoridades portuárias brasileiras. Em maio de 2023, começo do terceiro mandato do presidente, o então ministro de Portos e Aeroportos, Márcio França, disse que a possibilidade de transferir à iniciativa privada a gestão do maior porto brasileiro “foi um certo devaneio”.
Mais da metade (54%) dos paulistas ouvidos na pesquisa do Datafolha também se disse contrária à privatização da Sabesp. A conclusão do processo de desestatização da empresa completa dois anos em julho, sob promessa de investimentos para universalização dos serviços de água e esgoto.
O resultado mostra estabilidade, dentro da margem de erro, na comparação com a última pesquisa, quando 53% desaprovavam a venda da companhia de saneamento.
Além disso, para 51% dos entrevistados, a privatização da Sabesp não trouxe diferenças no serviço de água e esgoto -28% dizem que o serviço piorou, e 14%, que melhorou.
Para 49% dos entrevistados, o custo-benefício do serviço de água e esgoto em casa é ótimo, queda de 5 pontos percentuais na comparação com 2023 -29% dizem ser regular, e 21%, ruim ou péssimo. Há ainda uma fatia de 1% que afirma não utilizar o serviço.
Fernando Vernalha, advogado especialista em infraestrutura, diz que a percepção negativa dos paulistas sobre privatizações é reflexo dos casos de desestatização ou concessão que tiveram resultados negativos. “Isso reverbera mais, na minha opinião, do que os casos de operação privada exitosa, em comparação com o modelo estatal”, afirma.
Ele cita a concessão dos serviços de energia à Enel em São Paulo como um dos exemplos negativos.
Neste ano, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) decidiu, por unanimidade entre os diretores, abrir processo de caducidade (interrupção) do contrato da empresa.
Nos últimos anos, uma série de apagões deixou milhões de pessoas sem luz na região metropolitana da capital paulista. Em uma contestação à decisão da Aneel, a Enel disse que o caso envolve “um processo inédito, relativo a falhas inéditas, ocorridas durante eventos também inéditos”.
Na pesquisa feita pelo Datafolha, o percentual de paulistas que considera ótimo o custo-benefício do serviço de energia elétrica caiu 6 pontos percentuais desde 2023 e está no patamar de 45% -31% dizem que é regular, e 23% consideram o serviço ruim ou péssimo.
“Mesmo dentro do sistema metroviário, a gente tem operação pela própria companhia do Metrô, que é bem-feita. Temos operações concedidas bem-feitas e operações concedidas que não estão dando certo, pela sua complexidade”, diz Vernalha.
“A gestão privada de serviços públicos pode, sim, ser uma solução mais eficiente, desde que seja bem modelada e haja uma capacidade de fiscalização por parte do Estado, por meio de agências reguladoras”, completa.
Ainda de acordo com a pesquisa do Datafolha, 47% dos entrevistados consideram o custo-benefício do serviço de telefonia e internet ótimo ou bom, uma oscilação positiva de um ponto percentual na comparação com a última pesquisa. A parcela dos que consideram ruim ou péssimo caiu de 21% para 17%.
Já a fatia dos que consideram ótimo ou bom o custo-benefício das estradas que cobram pedágio em São Paulo caiu de 35% para 31%. São 36% aqueles que consideram ruim ou péssimo, aumento de 3 pontos percentuais em relação à última pesquisa.
O Datafolha realizou 1.608 entrevistas no estado de São Paulo, entre os dias 1º e 3 de julho, distribuídas em 71 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%, com eleitores de 16 anos ou mais. A pesquisa está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral): SP-01703/2026 e BR-06481/2026.