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Economia

Reforma Tributária exige preparação e acende alerta para competitividade de pequenos negócios

Empresas do Simples Nacional terão de avaliar impactos do novo sistema de créditos, enquanto adaptação a IBS e CBS exige mudanças em preços, contratos e sistemas

Isabele Mendes

16/09/2026 17h44

Foto: Banco de Imagens

A transição para o novo sistema tributário brasileiro deve exigir mais do que uma simples mudança na forma de recolher impostos. Para micro e pequenas empresas, o período de adaptação traz decisões que podem afetar preços, contratos, custos e até a capacidade de competir por clientes. Entre os principais pontos de atenção está a situação das empresas do Simples Nacional que vendem produtos ou prestam serviços para outras empresas e que, com a chegada do IBS e da CBS, precisarão avaliar qual modelo de recolhimento será mais adequado ao negócio.

O alerta está relacionado ao novo sistema de créditos tributários. Com a não cumulatividade, empresas poderão aproveitar como crédito o imposto pago na etapa anterior da cadeia. Nesse cenário, fornecedores enquadrados no Simples podem gerar um crédito menor para seus clientes do que empresas submetidas ao regime geral, o que pode pesar em algumas negociações entre empresas.

Segundo Anderson Trautman Cardoso, vice-presidente jurídico da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), essa diferença pode atingir principalmente pequenos negócios que estão no meio da cadeia produtiva. A situação tende a ser diferente para quem vende diretamente ao consumidor final, onde a geração de crédito para o comprador não tem o mesmo peso.

Para ilustrar a diferença, Cardoso explica que, enquanto uma empresa submetida ao regime geral pode gerar ao comprador um crédito correspondente à carga incidente na operação, estimada por ele entre 26% e 28%, no Simples o crédito será proporcional à faixa de tributação da empresa, podendo ser, por exemplo, de 2%, 4%, 6% ou 8%. Em uma relação comercial entre empresas, quanto maior o crédito aproveitável pelo comprador, maior pode ser o interesse por determinado fornecedor.

“Quem é do Simples nesta cadeia tende a perder competitividade”, afirma Cardoso. Segundo ele, a preocupação foi levantada durante a tramitação da reforma e levou à criação de uma alternativa: o chamado regime híbrido. Por esse modelo, a empresa poderá continuar no Simples para a tributação da folha e da renda, mas recolher IBS e CBS pelo regime regular, permitindo ao cliente o aproveitamento integral dos créditos relativos a esses tributos.

Escolha exige olhar para o cliente


A possibilidade, no entanto, não significa que migrar para o modelo híbrido será automaticamente vantajoso. A decisão dependerá do perfil de cada negócio, especialmente de quem são seus clientes e de quanto a geração de créditos pesa nas relações comerciais.

Para Cardoso, empresas que ocupam posições intermediárias na cadeia produtiva podem enfrentar maior pressão dos próprios clientes para adotar a sistemática que permita créditos mais amplos. Antes da escolha, será necessário fazer cálculos, conversar com compradores e avaliar os impactos financeiros. “É demanda, é interação com os clientes, alinhamento com os clientes”, explica.

A contadora e empresária Ariane Arrais, CEO da AuditMajestic e da ValenBella, também destaca que não há uma resposta única para todos os pequenos negócios. Segundo ela, empresas que atualmente pagam impostos de maneira semelhante podem experimentar impactos diferentes com a reforma, a depender do setor, da margem de lucro, do perfil dos clientes e da possibilidade de aproveitamento dos créditos tributários.

Por isso, a análise não deve se limitar à pergunta sobre pagar mais ou menos impostos. Entre as principais dúvidas dos empresários, Ariane aponta justamente a permanência no Simples, a possibilidade de recolher IBS e CBS pelo regime regular e os reflexos da escolha sobre vendas realizadas para outras empresas.

Adaptação vai além dos impostos


Outro desafio está dentro das próprias empresas. A reforma exige adequações nos sistemas de emissão de notas fiscais, revisão de contratos, organização das informações tributárias e uma nova análise sobre a formação dos preços.

Cardoso observa que o empresário precisará olhar para os dois lados da operação: fornecedores e clientes. Mudanças na carga tributária podem repercutir no preço final e nos contratos já firmados. Durante a transição, a complexidade aumenta porque antigos e novos tributos ainda vão conviver por determinado período.

Para estruturas menores, esse processo também pode representar aumento de despesas no curto prazo. Ariane aponta que empresas poderão precisar investir em sistemas, treinamento, atualização de processos e acompanhamento especializado. O impacto, porém, não será igual para todos os setores nem significa necessariamente aumento de impostos para todas as empresas.

A preparação antecipada, segundo a contadora, passa por conhecer com maior precisão a própria operação. Isso inclui identificar os principais fornecedores e clientes, entender margens e custos e realizar simulações antes que as novas regras avancem.

“Uma empresa pode perceber que seu preço não é o único fator considerado pelo cliente: a possibilidade de geração de créditos tributários também pode passar a ter importância”, explica Ariane. Para ela, isso não permite afirmar que todo negócio enquadrado no Simples perderá competitividade. Empresas que vendem principalmente para outras empresas, porém, precisarão observar o tema com maior atenção.

2026 é ano de preparação


Embora parte das mudanças tenha efeito nos próximos anos, a orientação dos especialistas é que a adaptação não seja deixada para a última hora. Para Ariane, muitos empresários já ouviram falar sobre a reforma, mas ainda não compreendem como as alterações podem atingir a realidade específica de seus negócios.

Ainda em 2026, ela recomenda que as empresas façam um diagnóstico junto à contabilidade, revisem sistemas de gestão e emissão de notas fiscais, organizem informações e simulem diferentes cenários. Para quem está no Simples Nacional, também será necessário acompanhar os prazos e as regras relacionados às opções disponíveis para 2027.

A mudança, portanto, coloca o planejamento tributário em uma rotina até então menos comum para parte dos pequenos empresários. Além de entender quanto será pago em impostos, cada negócio terá de avaliar como sua escolha tributária conversa com fornecedores, clientes, preços e margens. Em uma reforma que altera a lógica da tributação sobre o consumo, preparar sistemas e fazer as contas antes das decisões pode ser tão importante quanto conhecer as novas alíquotas.

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