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Produção de cafés especiais aumentou 50% no ano passado

O que muda normalmente não é a semente, mas o cultivo, acrescido de cuidados que vão do preparo do solo e etapas de colheita, fermentação

Pedro Martins
FolhaPress

De olho em sacas vendidas por até R$ 20 mil, agricultores brasileiros estão aprendendo a produzir cafés especiais. Os grãos diferenciados se espalharam por cafezais de todo porte.

O que muda normalmente não é a semente, mas o cultivo, acrescido de cuidados que vão do preparo do solo (antes e depois do plantio) às etapas de colheita, fermentação, limpeza, descascamento, armazenagem e torra.

Cerca de 19% das 63 milhões de sacas produzidas no país em 2020 foram de especiais, alta de 50% sobre 2019, segundo estimativas da Associação Brasileira de Cafés Especiais.

Para 2021, a tendência continua. O Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) aponta exportação de 104 mil sacas de grãos especiais da espécie arábica, a mais cultivada, até junho —21% a mais.

Autor do “Guia do Barista”, Edgard Bressani diz que a produção brasileira, a maior do mundo, deixou de ser reconhecida apenas pela quantidade e chega a cafeterias de luxo no exterior.
Na empresa da qual ele é sócio, a Capricornio Coffees, que vende os grãos especiais a 34 países, a expectativa é aumentar a exportação de 90 mil para 150 mil sacas em três anos.

“As pessoas começaram a olhar para o café como olham para o vinho. Os agricultores diziam não ver motivo para gastar mais nos especiais, mas a nova geração, com jovens que vão estudar e voltam ao campo, mudou tudo.”

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É o caso da família Malta, que planta café há cem anos, mas só em 2015 passou a produzir os especiais. A ideia veio das filhas, Bárbara, que estava no início da faculdade de agronegócio, e Bruna, que se formou jornalista mas havia aberto uma cafeteria.

“Há dez anos, não existia cafeteria que servisse café especial no interior. Mesmo nas capitais eram poucas. Aí teve um boom. Começamos a produzir quando percebemos a tendência”, diz Bruna, 38.

Dos 150 hectares do sítio em Jeriquara, a 360 km de São Paulo, 10% são destinados ao café especial, com notas de caramelo e chocolate meio amargo, que já chegou a ser vendido por R$ 3.000 a saca, ante R$ 500 do tradicional.

O grão é avaliado a partir de um protocolo mundialmente reconhecido que analisa dez aspectos do café, do sabor à fragrância. São considerados especiais os que obtêm entre 80 e 100 pontos.

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Participar de concursos também aumenta o valor, como observou Luiz Alberto Rodrigues, de Jacarezinho, a 385 km de Curitiba. Vencedor de um prêmio na Austrália em 2019, ele viu a saca de seu café “Honeymoon”, com notas de caramelo e frutas vermelhas, ser vendida por até R$ 20 mil.

O grão com nota acima de 90 é para poucos: só 15 sacas por safra, 0,5% da produção total. O restante, avaliado entre 84 e 87 pontos, é vendido pelo dobro do preço do tradicional. O valor compensa, diz Rodrigues. Por isso, 90% dos 110 hectares são dedicados aos grãos especiais.

“Tem uma onda de muita prosperidade entre as cafeterias que vendem este café ao público. Antes era difícil justificar o preço, porque o consumidor não conseguia diferenciar um café do outro, mas hoje tem quem pague.”

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