LEONARDO VIECELI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)
O popular prato feito não escapou da inflação no Brasil. O preço médio dessa refeição chegou a R$ 31,90 em junho, o que representa altas de 7,2% ante janeiro (R$ 29,77) e de 5,4% frente a março (R$ 30,27), apontam dados do IPF (Índice Prato Feito).
O IPF é elaborado pelo Núcleo de Estudos Econômicos da FAC-SP (Faculdade do Comércio), instituição de ensino superior mantida pela ACSP (Associação Comercial de São Paulo).
Considerando a média de junho (R$ 31,90), um trabalhador gastaria o equivalente a R$ 638 no mês para almoçar fora de casa em 20 dias úteis.
A série histórica do IPF reúne dados a partir de janeiro deste ano. Segundo os responsáveis, a edição mais recente coletou 887 preços válidos nas cinco grandes regiões do Brasil.
A apuração ocorreu de modo presencial e em aplicativos de entrega de comida. O IPF considera o prato feito como a refeição composta por arroz, feijão, proteína, salada e guarnição.
Segundo o economista Rodrigo Simões, da FAC-SP, a carestia no primeiro semestre reflete uma combinação de fatores. Ele cita a alta de parte dos alimentos no período, além de pressões do custo de mão de obra e dos combustíveis.
O primeiro semestre teve os impactos econômicos da guerra no Irã, que elevou as cotações do petróleo, gerando repasses para itens como óleo diesel e gasolina.
REGIÕES TÊM DIFERENÇAS
O IPF também traz um comparativo entre as regiões. O Sul registrou o maior preço médio do prato feito em junho: R$ 34,90. O valor ficou 16,4% acima do encontrado no Norte (R$ 29,99), o menor da pesquisa.
Centro-Oeste (R$ 34,45), Sudeste (R$ 31,99) e Nordeste (R$ 30) completam a lista.
Diferenças nos custos de imóveis comerciais, renda, logística de produtos, mão de obra, concorrência e perfil de consumo podem explicar o quadro, conforme a pesquisa.
A FAC-SP destaca que o IPF não substitui indicadores como o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O IPCA é o índice oficial de inflação do Brasil.
O objetivo do IPF, conforme os responsáveis, é complementar a análise econômica por meio de um item amplamente consumido e facilmente compreendido pela população –o prato feito.
Dentro do IPCA, tubérculos, raízes e legumes acumularam inflação de 67,71% no primeiro semestre de 2026. O feijão-carioca, o tipo mais consumido no país, teve alta de 52,82% no mesmo período.
Hortaliças e verduras (13,91%) e carnes (5,6%) também ficaram mais caras. O arroz (-0,51%), por outro lado, mostrou queda (deflação) no índice do IBGE.
EL NIÑO É AMEAÇA
O horizonte de inflação no segundo semestre tem o desafio do fenômeno climático El Niño.
O evento é conhecido por alterar a distribuição das chuvas, o que pode prejudicar a produção agropecuária e, assim, impactar os preços de parte dos alimentos.
O cenário também carrega o risco de novas pressões da guerra sobre o custo de combustíveis e fertilizantes. Os Estados Unidos retomaram os ataques ao Irã na semana passada.
“Olhando para esses dados e conversando com os estabelecimentos [comerciais], a gente acredita que infelizmente o prato feito ainda pode subir um pouquinho no segundo semestre”, diz Simões.