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Economia

Os desafios do crescimento do número de investidores na Bolsa de Valores

Jornal de Brasília

01/08/2021 11h04

Atualizada 04/08/2021 11h07

Para alguém que, como eu, dedicou a vida ao ensino de mercado de capitais e finanças pessoais, é um verdadeiro alento ver crescer a quantidade de pessoas que investem na Bolsa de Valores.

Entre 1968, quando eu ainda era menino, até julho de 1971, o Ibovespa teve uma valorização de mais de 1.000% em dólares. 

No embalo do milagre econômico e da criação dos fundos 157, que davam incentivos fiscais para os contribuintes aplicarem em cotas de ações, tivemos a primeira entrada massiva de novatos no mundo da renda variável.

A edição de 26 de maio de 1971 da revista Veja trazia como matéria de capa a multiplicação do dinheiro nas Bolsas de Valores. Naquela época, tínhamos as Bolsas do Rio de Janeiro e de São Paulo. 

Só que a alegria não durou muito. 

A edição de 17 de novembro da mesma revista trazia na capa uma ilustração de um gráfico em queda com caricaturas de investidores assustados e o título: “Os humores de uma Bolsa muito jovem”. 

A queda não foi rápida como previa a matéria, e depois do pico o mercado entrou em um grande período de baixa que durou 13 anos. Com isso, o número de investidores em renda variável despencou. 

Veio o Plano Cruzado e novamente houve crescimento; com o fracasso da nova moeda, a quantidade de investidores em renda variável voltou a cair.

Parecia uma sina: investidores entrando no mercado após um período de alta e correndo após uma queda. 

O crescimento recente dos investidores na Bolsa de Valores brasileira

Entre fevereiro de 2019 e fevereiro de 2020, o total de cadastros na B3 cresceu 109%, chegando a 1.973.302. Com a crise resultante da pandemia, eu esperava uma forte redução como sempre ocorreu. 

Felizmente eu estava errado. Os números não pararam de crescer. 

Em julho de 2021, foi atingida a marca de 3.826.949 investidores ativos, o que representa um aumento de 94% no ano. Outro fator muito positivo foi o crescimento de empresas listadas, que saiu de 390 para 439.

Mas a quantidade de pessoas na B3 não conta toda a história da migração dos brasileiros em direção ao risco. Muita gente prefere fazer aplicações em fundos a investir diretamente na Bolsa. 

Em junho de 2021, existiam mais de 4 milhões de cotistas nos 3.404 fundos de ações no Brasil, sem contar os quase 2 milhões nos antigos fundos 157. 

Nos 11.980 fundos multimercado, que geralmente também investem em ações, o total de cotistas se aproxima de 5 milhões. 

Evidentemente muitos dos investidores desse último grupo também aplicam seu capital em fundos de ações ou ações diretamente.

Se os números são eloquentes em demonstrar o desejável crescimento de brasileiros no mercado de renda variável, restam duas perguntas: o que motivou esse crescimento e, por conseguinte, ele será ou não perene?

O que está por trás do crescimento de investidores na Bolsa?

Sem dúvida, a drástica queda da taxa básica de juros da economia, que reduziu significativamente a rentabilidade dos títulos pós-fixados e sem risco, atrelados à Selic e ao CDI, influenciou nessa migração. 

Assim, a dúvida que fica é se com a esperada elevação da Selic os investidores retornarão ou não para sua postura de rentistas ou permanecerão nas aplicações mais sofisticadas, as quais embutem uma maior expectativa de retorno no longo prazo mesmo com a natural volatilidade de curto prazo que as caracteriza.

Outro fator que pode explicar a migração em direção à renda variável são as corretoras e plataformas digitais de investimentos que passaram a dar um atendimento adequado e amigável aos pequenos investidores e às redes sociais, cada dia atraindo mais pessoas dedicadas a explicar o mercado para novatos.

Os desafios que surgem com a popularização da Bolsa

Em estudo recente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), foram analisados 266 influenciadores com perfis ativos no Facebook, Instagram, Twitter e YouTube, cujo principal tema de debate são os investimentos. 

Como é admitido no relatório, esses influenciadores representam apenas os perfis com mais seguidores, desconsiderando um enorme universo de pequenos e microinfluenciadores.

De fato, a queda da taxa básica de juros e corretoras mais amigáveis aos pequenos investidores são fatores extremamente desejáveis. Já o universo de influenciadores gera preocupações. 

É evidente que existem pessoas capacitadas e bem-intencionadas, porém ainda são numerosos os perfis que divulgam ideias bastante viesadas ou erradas sobre o mercado financeiro e a educação financeira de maneira mais ampla.

É muito grande a quantidade de influenciadores pregando que os investimentos são uma forma rápida de enriquecimento e divulgando informações tendenciosas ou inverídicas sobre o que é realmente o mercado de capitais. 

Mesmo quando pesquisas acadêmicas sérias demonstram a baixa rentabilidade do day trading, ainda existem pessoas ostentando riquezas que pretensamente foram adquiridas com ganhos rápidos. 

Riquezas essas que, muitas vezes, são falsas ou apenas resultado da venda de cursos para incautos.

As pirâmides financeiras são outro tormento.

Enquanto existir o ganancioso que acredita ser possível ficar rico rápido sem esforço, haverá pessoas prontas para oferecer essa oportunidade.

Os reguladores precisam jogar o jogo com cautela e no estrito limite da lei, já aqueles que buscam lucro fácil ignoram a cautela e a lei. 

Assim, acreditar que será possível depurar o mercado sem oferecer educação financeira de qualidade para as pessoas é uma doce ilusão. Talvez, não tão doce assim, se avaliarmos as consequências futuras.

O imenso contingente de pessoas físicas no mercado de renda variável é um acontecimento fantástico. 

Porém, investidores sem uma boa educação financeira sempre serão vítimas fáceis para aproveitadores e golpistas.

Buscar boas recomendações e parceiros confiáveis, que trabalhem sem conflito de interesse, é um bom caminho para o sucesso.

Como alguém que trabalha há quase 40 anos na área, torço muito para que o mercado continue crescendo e que os jovens investidores tenham sucesso em sua caminhada.

Autor: Jurandir Sell, doutor em Finanças Comportamentais e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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